Ainda não é o fim do mundo

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Não. Não. Eu não faço questão de fumar todo dia. Toda hora. Até parece que se você experimentar um bagulho vai virar um viciado. Eu nem era de fumar. E daí se eu estou fumando hoje? Deu vontade, ué. Espera aí, me deixe explicar o que aconteceu.

Acordei com barulhos pela casa. A galera chegou fazendo um barulhão. Muitas vozes. Falavam alto. Alguém abriu a porta e entrou tagarelando com outra pessoa. Levaram um pequeno susto seguido de um: Você deve ser o novo morador. Não. Não. Você está doido? Eu estou falando que isso foi o que aconteceu quando eu me mudei para casa da dona Glória. Não. Não. Eu fumei com o Henrique ontem. Presta atenção na história.

No dia que eu me mudei… você está me entendendo? Estou chapado. Quando eu desci já tava todo mundo lá na sala. Eles estavam no Calçadão bebendo. Eles acharam que eu ia chegar no domingo. Isso. Isso. Eu estava sóbrio. Eu nem bebia direito. Cara, eu só tenho 18 anos. Nem em boate eu tinha ido. Eu sei. Você, perto de mim, é praticamente um alcoólatra.  Eu sempre fui nerdão. Eu estudava mesmo. Oito e meio em ciências? Nunca! Eu sei que você também era um nerd. Mas eu era bem estereótipo. Tinha até asma. Bom, morre aqui. Eu sou virgem. Nunca. Nunca… mulher, homem… nada.

Aí… mudando de assunto. Mudando de assunto. Eles estavam bem bêbados e queriam porque queriam que eu saísse para comemorar minha chegada com eles. Encheram o meu saco. Uma chatice. Ai, o Henrique, me convenceu. Eu já conhecia ele pelo MSN. Bem nerd, né? Ele era meu amigo virtual.

Eles foram comigo para o Calçadão. Depois a gente desceu para um show no Bucaneiros. Só que eu estava tomando refrigerante. Cerveja as pessoas bebem a noite inteira. O guaraná na terceira lata já te enjoa. Eu queria ir embora. Eu não estava na mesma sintonia que eles. O Henrique falou que ia me levar no ponto e depois voltava. Mas ele foi para casa comigo. A gente rachou um táxi no caminho.

Depois ele me perguntou se eu fumava um. Ele falou assim, mexendo o braço. Assim. Como se tivesse soltando pipa. Falando manso. E aí você fuma um? Bem malandro. Eu achei engraçado. Desfaz para mim, ele falou. Não fazia ideia do que ele tava falando. Desfaz o que? Ele mostrou como é que fazia. Eu desfiz, ele pegou uma seda. Enrolou. Passou baba. Bateu o cigarro na mão. Passou baba de novo. Pegou o isqueiro e… fez aquele barulho. Eu achei engraçado, sabe? E era uma cena bonita também. Me deu vontade de fumar. Ele passou para mim e tirou a camisa. Aí que me deu mais vontade de fumar. E puxei e tossi. Fiz a maior vergonha. Black verminoso, ele falou. Sei lá o que era aquilo. Secou a minha boca. Me deu uma sede. Mas eu, sei lá… eu pesquiso muito. Eu acho que falta na sociedade contemporânea mais ritual de passagem. E para mim aquilo era um ritual. E… você está me entendendo? Não temi nada. Fumei, fumei. Fiquei chapado. Eu fiquei olhando para ele. Nesses rituais, nos rituais de passagem da infância para a vida adulta sempre ocorrem algo doloroso. Um corte, uma tatuagem, mordida de formigas, chicotadas… e o doloroso, simbolicamente para mim, era romper com aquela vida careta e certinha que eu vivia e ser o novo Artur. Era como se eu estivesse de frente pro pajé dessa tribo ou o curandeiro ou o médico-feiticeiro e essa fumaça fosse a minha purificação. É engraçado que em toda essa iniciação, em todo rompimento com a infância, há sempre uma grande festa. A tribo sempre comemora a coragem desse menino ou menina dando mais um passo… Um passo importante. O Henrique era bem paranoico, mas depois que ele fumava, parecia outra pessoa. Aí eu disse isso para ele. Ele riu. E depois perguntou se era a primeira vez que eu fumava um bagulho.

Era a primeira vez. Nunca tive muitos amigos. Parecia uma maldição. Eu fui um dos primeiros alunos do colégio com acesso a internet. Assim que chegou no Brasil. Eu era um dos primeiros que entregava os trabalhos feitos pelo computador também. Eu sempre gostei de computador. Eu era do tempo do ICQ. Clube Yahoo. Essas coisas. E ninguém conversava comigo. Tinha uma aula de física, eu pesquisava on-line e tirava uma nota alta. Mas antes de ter computador, eu sempre frequentei biblioteca. Eu gostava de pesquisar em enciclopédias. Talvez a única vantagem da solidão: muito tempo livre para ler livros. Muito. Ninguém me chamava para festas. Ninguém me convidava para nada. Nem para beber, nem para fumar. E a minha cidade não tinha nada. Eu viajava bastante para ir ao cinema. Depois eu voltava no último ônibus porque no dia seguinte eu tinha aula. Minha tia trabalhava numa empresa de ônibus e então ela me colocava de graça. Eu viajava de graça. Eu ia de carona com o pessoal da faculdade. Eu sempre ia para Juiz de Fora. Um dia pelo Orkut, eu conheci o Henrique. Não. Eu acho que conheci ele primeiro pelo MSN. Não. Orkut. Eu estava pesquisando sobre jornalismo e vi numa comunidade a foto dele e…foi pelo Orkut. A gente começou a trocar mensagens. Foi daí que eu decidi que estudaria jornalismo em Três Rios. Ele falou que o curso era bom. Que o pessoal era gente boa… deixei de estudar em JF para cair em Três Rios.

Então ele estava na minha frente, meu pajé. No meu ritual de passagem. A gente fumando um. Minha estreia na maconha. Parecia que eu já fumava um tempão. A gente começou a conversar sobre isso. Ele disse que sempre era um ritual. O primeiro parece mais importante porque romantizamos a primeira vez. Na nossa imaginação perder o cabaço dói, é traumático. E também não se esqueça, ele ia dizendo, que com o cristianismo é proibido sentir prazer com a dor. Em algumas imagens de Jesus crucificado, ele está chorando. A igreja católica prega o medo e a submissão. Nada de tentar fazer do seu jeito, não vai dar certo, é pecado e você vai se dar mal. Você vai sofrer se não fizer do nosso jeito. Ou seja, você estará condenado. Você vai para o inferno. Outras religiões, principalmente as africanas a dor é necessária. O seu sacrifício, aí você citou os rituais de passagem, é necessário. Sofrer é necessário. Crescer é necessário. Faz parte do progresso. Crescer é evolucionário. Se você preferir, crescer é revolucionário.

Eu juro que estava entendendo tudo o que ele falava. Eu estava viajando. E às vezes olhava para o peito dele. A barriga dele. Achava tudo estranho também. E eu estava gostando de olhar para ele. Sei lá. Eu gostava de olhar para ele, mas era de uma forma diferente de olhar para um Di Cavalcanti. Você acredita na morte, Henrique? Eu perguntei.

Como assim morte?

Na morte do corpo.

Eu acredito em reciclagem. Não é porque está na moda falar em reciclagem. Eu acredito que tudo é cíclico. Tudo se repete. Nascer, crescer, morrer, reciclar. Nascer de novo, crescer, às vezes se reproduzir, morrer.

Eu não acredito em alma. Meu medo de morrer é não haver continuidade.

Eu acredito em alma. A vida após a morte é uma ideia boa. E também eu acho que a gente tem que ter uma recompensa.

Eu já pensei em suicídio, mas me dá medo o fim de tudo. Sabe, o que vem depois do fim? Para mim isso é assustador. Aí eu disse isso para o Henrique. Ele citou a música Semáforo do Vanguart. Meus amigos todos querem morrer. Eu pensei um pouco. Eu não sabia o que responder. Minha memória estava a mil. Eu queria falar para caralho. Eu queria que aquele momento nunca acabasse. Ficar sozinho com ele era uma das melhores coisas que eu já tinha experimentado na vida. E cada vez que eu fumava e passava a bola para ele, eu encostava mais nele. Tentei mudar de assunto e ele nem aí. Depois ele completou: você morreria se pudesse ter a vida que sempre quis?

(…)

Naquele sábado a policia tinha dado cerol geral na Vila Isabel. Tinha prendido um monte de traficantes. Batido em um monte de viciado. Maconha na praça tinha secado. Ninguém tinha. O Henrique tinha o bagulho dele porque ele comprava de manhã bem cedo. Ele fumava antes de tomar café. Maior palhaçada. A polícia faz esse show todo, mas não impede o tráfico. É como você ser assaltado e depois a policia aparecer. O que adiantou? Já era. Você já foi assaltado. Policiamento nas ruas não impede que você seja assassinado.

Eu acho que nada escapa da morte. Você pode viver cercado num castelo e ter um exército de 100 mil homens te protegendo. Você pode ter toda a equipe médica. Todo o dinheiro do mundo. Um dia você vai morrer. E o que é afinal a morte? E sim, respondendo a sua pergunta. Eu sempre morro pelo que eu quero.

O Henrique estava adorando a nossa conversa. Você via a expressão dele. A expressão corporal. O modo que ele balançava a cabeça e abria a boca querendo falar. Aí ele: eu não sei fazer outra coisa se não for dançar. Eu amo dançar. Eu acordo todo dia às cinco e meia. Ganho uma porcaria. Estudo para caralho. Tem dias que eu não tenho força para voltar para casa de tão cansado. Mas eu acho que estaria morto se eu não fosse bailarino. Eu vivo pela dança.

Eu acho que todo mundo é robô. Quando você exterioriza o que você realmente ama e o que você é, automaticamente você desmonta esse robô. Você ganha vida. Isso para mim é viver. Viver é ter consciência do amor. Viver de forma plena. Intensamente. Viver de verdade. Eu disse para o Henrique: eu amo computadores, mas não sinto falta, não. Não sou viciado em computador. Eu amo muitas outras coisas. Eu amo entender a fotossíntese. Eu amo a forma que os bailarinos dançam. Se eu fosse obrigado a amar uma única coisa, eu escolheria a dança.

Mesmo se fosse o fim do mundo?

A gente já passou por tantos apocalipses… Agora tem mais um em 2012. Acho que o mundo já acabou.

Como assim?

A ideia de que o mundo vai acabar. Filosoficamente, estamos vivendo em outro mundo. A Idade Média era um mundo. Século XIX outro mundo. Hoje tudo é obsoleto. Não há novidade. Tudo acabou. Os computadores não seduzem mais, entende. Eles são antiquados. Qualquer bom celular substitui o computador. Mesmo vivendo nessa era digital, a vida pode ser outra. Ou a vida pode ser a morte. A vida pode ser o principio ou fim… viver pode ser o próprio apocalipse. Mas qual é a diferença entre as pessoas mortas e as pessoas que estão vivas? Os vivos respiram, sentem fome, dançam, protestam.

E depois ele perguntou: Vamos fumar mais um?

Já estava amanhecendo. A gente fumou e acabou desmaiando.

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