Queer as folk

ray ban

“Não vemos as coisas como são: vemos as coisas como somos”. (Anaïs Nin)

“Dar a cara à tapa! Ser louca, estranha, chata! Eu sou assim”. (Clarice Lispector)

Prepara. Toma uma gelada. Toma uma água. A vantagem da experiência é que eu tenho uma espécie de má sorte para sofrer. Silêncio. É bom. Quero menos. O aulão de dance hall uau, uau. Renovou minha fé em Deus. Definiu ainda mais minha cintura. E definiu também o que eu ia fazer hoje à tarde. Pegar minha Elle Sexy Body de setembro. Não! Com lenço do Reinaldo Lourenço. Para tudo. Por que não temos uma Elle Homme Brasil? Por que se investe tão pouco em informação de estilo para o homem tupiniquim? Por exemplo, no meu curso de francês é estritamente proibido usar boné, chapéu e gorro. Proibido por quê? Questão de segurança? Isso quer dizer que se eu for de chapéu… Mas ir de máscara pode. Correto?

Segunda-feira, 16h33. Eu percebo que não estou motivado quando às 16h, eu ainda estou em dúvida sobre que roupa usar. Short Adidas de jogar tênis. Cueca Zorba. Sem camisa. Uma única fita do Nosso Senhor do Bonfim. Cerveja irlandesa na tulipa. Mashup do MGMT no USB Jack. Paquerando uma camiseta da Costa do Marfim no African Lookbook. Éléphants Côte-d’Ivoire. Amarela. Cor do otimismo. Cor da iluminação. E eu adoro a África Ocidental Francesa. O curso que eu faço na escola que não permite o uso de chapéu talvez não saiba que também se fala francês no continente mãe.

Talvez não saiba que eu estreiei no teatro estudantil interpretando o Rei Luís XVI. Talvez não saiba que eu tenho paixão pelo Yves Saint Laurent. Talvez não saiba que eu amo Daft Punk. Talvez, quantas vezes eu assisti a trilogia das cores do Kieślowski. Talvez, que eu acompanhe o festival de Cannes. Talvez não saiba que eu apoio com todo coração o movimento les panthères roses, Talvez, que o Canadá é o país que mais combina comigo, que eu adoro a TV5, o Tour de France, o uniforme da seleção do Camarões, Didier Drogba, luta tradicional africana, o sucesso que é a federação senegalesa de rugby. Nem tudo francês está na França. Ou na Bélgica. Ou na Europa. Cansei da sua novela.  La vérité n’est pas nouvelle. E eu prefiro aprender o linguajar lendo a Têtu na Praça do Zumbi. A Praça sim é pública… Por falar nisso, eu nunca me esqueço da edição da Têtu com uma canga do Jean Paul Gaultier. Uma revista super gay. Gay chique.

Talvez não saiba que eu sou gay, que eu sou queer. Eu estou além da sua revolução. Que eu eliminei a guilhotina. Eu sou de uma nova vanguarda. Eu uso chapéu. Eu acredito no cavalheirismo. Eu ponho fé num cabelo volumoso e bonito.  E acredito num adorno de cabelo.

Como assim não pode usar chapéu? Os meninos canhotos eram demonizados na escola. Os negros não podiam entrar nem nas igrejas. Educação feminina era taxada como investimento inútil. As pessoas especiais, e eu sou especial, assim como você também/talvez é único são sempre censuradas. Gente que nasceu para brilhar… Brilhe querido, brilhe. Eu gosto da sua luz. Eu me senti desestimulado. Não aprovei aquela regra.

Antes de me inscrever para o curso, eu fiz duas perguntas básicas. Vocês tem algum tipo de discriminação? Vocês incentivam os alunos mais brilhantes? Eles não souberam me responder. No magistério, eu aprendi que quando você não sabe a resposta, você vai atrás dela. Posso te responder amanhã? Já se passaram muitos amanhãs e até hoje eu só ouvi que não se pode usar chapéu na escola. Mas as aulas começam às cinco. E tem sol. Cinco horas ainda tem Sol no inverno brasileiro. Ainda tem sol no Leblon. Ainda está quente. Usar chapéu é elegante para me proteger dos raios nocivos do Sol. E óculos. Assim como é chique hidratante com protetor solar fator obrigado pelo sol que me ilumina. Obrigado pelo Sol que me responde.

Entenda uma coisa. Eu adoro entender. Eu adoro estudar. Eu adoro aprender. Aprender rejuvenesce. E quando eu percebo que não estou motivado quando às 18h03, eu ainda estou em dúvida sobre que roupa usar. Eu aceito uma escola que me ensine um idioma de tirar o chapéu.  E que a única regra seja tirar nota dez. Sofrer, eu não tenho vocação. Acho ultrapassado. Por mim todos usariam livremente enormes cartolas, colares africanos e sungas, biquínis e maiôs. Eu gosto de aprender com o sol. Eu gosto de sentir calor.  De me sentir iluminado. Aprendam comigo. Eu sou o rei da minha vida.

“Chapéu deriva do francês antigo chapel, hoje chapeau”. A principal função do chapéu é proteger a cabeça. Existe até um museu. Na França. “Tirar o chapéu” é uma expressão da língua portuguesa traduz como “acontecimento extraordinário, que merece homenagem, coisa digna de admiração”. Esse provérbio tem origem nos tempo de poder do rei francês Luís XIV. O rei sol.  O rei que agora sou eu.

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