Os dragões não conhecem o Vila Paraíso

O segredo hoje é dizer pouco… Mas não escrever menos, que fique claro. Eu li. E aquilo tava uma loucura. Tinha exposição na cidade, eu babi. E maconha é o fino que contenta por dentro. Desci. Dez aqués por região. Quatro oxós de neca. Oxó de baixo jeans Ralph Lauren. Abatá Mr. Cat. Marca maravilhosa. Pulôver pra entrar no cio. Sabe? Com aquele decote louvando minha magreza. Quem me conhece sabe. Eu sou muito alto. E um palito de fósforo. Cabeça a mil. Pronto para explodir.  Pronto para queimar.

E essa mania agora dos caras depilarem até lá na região que não ousa dizer o nome. E estão todos passivos. Não adianta querer ser mulher. Aí o outro michê que levou três facadas de um concorrente. Ou amante? Já tá na pista. Já tá dando. A barba, perfeita. Cara de homem. Homem que gosta de mulher. Mas é uma bicha, lógico.

Disse para trava de 16 anos. Ele disse: “Tô fugindo de buceta hoje. Vamos ali”?

A trava riu. Jogou um veneno. Disse: “Você não gosta de mulher. Eu conheço esse papo. Fora ocó”.

Eu não teria recusado aquela bunda musculosa. Mas a trava só pensa em dinheiro. E tinha um cara enchendo o saco querendo ficar com ela. Mas ele não tinha um puto nem pro cigarro. A bicha colocava umas músicas horrorosas no smart dela. Eu morria de rir. A música da Claudia Leitte com os Havaianos é hedionda.  Ela: “Olha mona, essa é a verdade da vida”.

Eu: Ê, ê. Deixa-me ir ali buscar uma tabanagira. Era o jargão, o código para caçar cliente. E os carros passando querendo droga. Cu que é bom, nada. Aí aquele traficante pretinho passou. Tinha faturado. Parou na minha frente. Ele disse: “Cê quiser temo aí”.

E na correria. Pararam duas motos. Querendo dois de vinte. Ele colocou o dinheiro no bolso. Deu a volta. Passou por mim. E gritou: “Hoje eu tô rico. Hoje eu tô patrão”.

Eu ri. Eu disse: Adoro patrão. E joguei um beijinho.

Não é o dinheiro que me faz puto. É o prazer. E o dinheiro vem fácil. Um rebolado. Uma onça.

E a gente tava falando com o michê que levou a facada. Ele disse: “A gente que sempre trabalhou. A gente que tá sempre na luta. Sempre na correria, se recupera fácil. Até minha médica tá apavorada comigo. E falei com ela que eu sempre me exercitei. Não preciso de fisioterapia. Não preciso ficar doente”.

E esse michê é soro positivo.

o traficante pretinho passou. De novo. Eu olhando. Não posso ver preto. Acho a cor linda. Fui buscar uma água. Não fumo cigarros. Só quendo babi.  Uma gracinha o nego. Joguei meu cabelo. Dei uma volta. Dei mole. Dei muito mole.

Ele: “Qual é a boa? Vai se jogar no Zeca”?

Eu: Não sei. Telefone já tocou do Zeca. Tá rolando uma Kombi.

Ele: “Tamos aí. Tem um fino lem casa”.

Eu: Tô precisando fumar (Falo que eu tenho também?). Vamos lá.

Sabe onde era, né?Rua Direita. Zona Leste II. Vila Paraíso.  Puta cacete. Era muita vontade de dar.  Dar uma bola. Subimos pro barraco dele. Eu conversando, conversando, conversando.

Ele nada de conversar. Ele tava empurrando a bicicleta. Sério. Mas depois ele disse: “Tô com trezentos gramas. Peguei um quilo. Já evaporou. Vou te dar uma ponta procê levar. Hoje fiz 1200. Você vai querer uma cerveja”?

Eu adoraria. E joguei o cabelo. Sabe esses meninos que andam para baixo e para cima de bicicleta? A perna… Já tocou na perna? Já pegou no braço? Já tocou lá? E esse povo de carro cada vez mais gordo. Gordo e mole. Enfim…

Barraco perto do rio. Ele apertando um dedo de Judas. Eu disse, olhando para ele: Vila Paraíso. Quem nome lindo. Mais bonito que Belo Horizonte.

Eu disse depois de um tempo: Gosto de Niterói. Parece um cara legal. Prazer. Eu sou Niterói. E ri. Nem tinha dado umas bolas e eu lá rindo. Moro em São Gonçalo, gosto de Niterói. Pensei direitinho num garoto em Icaraí saindo do Sendas de bermuda, sem camisa, cabelo liso, corpo bronzeado, sunga à mostra, chinelo. Talvez ele tenha uma pulseira de couro no braço esquerdo. Ou um colar rasgando o peito. Nada de relógio. Medo de ser assaltado. Na sacolinha do supermercado ele carrega uma garrafa de…

“Cerveja”? Perguntou o nego. E tirou a camisa. A casa era bem quente. Não abafada. Era quentinha. Pequena. Um quarto simples. Cozinha simples. Sala com computador e TV de plasma. Casa simples. E tinha um sofá lindo. E foi lá que eu me sentei com as pernas cruzadas. E ele colocou um DVD. Só putaria. Negão comendo branquinho. Essas coisas. Tinha um brasileiro ótimo. A bicha caçando os negões em Copacabana. Já tinha visto no Myvidster.

Eu perguntei: Não tem música, não?

Ele mexeu no celular. Tinha. Pra que discutir com madame?

Eu disse: Como é que ela sabe que o samba é vexame? Ela foi, lógico.

E ele deu aquela pegada no pau.

E o filho da puta era bonito. Bonito demais. Como definir o tom da pele dele? Era bem negão. Negão original. Aqueles negros enormes do Senegal. Como ninguém sabe onde fica o Senegal, mas conhece futebol, ele era parecido com o jogador Mohamed Diamé. Cabelo curto. Sorriso honesto. Lábios carnudos. O que mais? Bermuda jeans surrada. Chinelo Kenner. E cueca branca. Negão de cueca branca? Dá vontade de pegar. É a combinação de tags mais valiosa desse blog. Ele percebeu que eu estava de olho. Perguntou se eu tinha gostado do barraco. Eu olhei, eu olhei. Olhei mesmo é para ele. Um espetáculo de negro. E joguei o cabelo. Impossível não gostar dessa visão do paraíso.

O modelo da foto é Ger Duany. Ele é do Sudão. Outro país africano que ninguém conhece. Em http://www.tumblr.com/tagged/ger-duany

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