Deus e o Diabo na Morada do Sol

A vida é móvel. Wi-fi. Brincar de telefone sem fio. Conectar-se né? E a bicha soube que eu estava recebendo cantada até nos chats e veio saber correndo que história era essa de toda noite eu levar pau do computador. Eu tava fumando o maior baseado que a minha sogra mandou e comendo o bofe. Saca? Erro na linguagem? Não. Isso mesmo que você entendeu.

Eu queria experimentar. Como é que é? Como é que é? Ela disse: Porra, irmã. Até o computador está te comendo. Ê, ê bicha. Trouxe duas Otis. Abre essa porra desse caralho. E pegou-me no flagra. Viu o dunda.

Prazer, fulano de Tal. Sou o marido do Artur.

A bicha: Nossa! De carne barata você não tem nada. E tcha, tcha, tcha, tcha, tcha, tcha. E era assim que a bicha ria. Como se dançasse. Imagine o som do tcha, tcha, tcha. Era a risada da Jennifer Lopez em vida. E edizera.

Eu: Fudeu. Abre um copo aê.

Ela: O quê? Tá louca bicha? Você entrando toda hora na internet te surtou. Você e o seu Picasso Negro. E chamando-o de Carne Barata.  Propaganda enganosa. Quero três quilos agora. Bem passado. Queimadinho.

Eu: Olha isso gente. Puta que o pariu. Já sabe até o apelido. E dando em cima do bofe. Não sou ciumento, mas porra. Não irmã. Não. Menos. Menos. Não te quero de bandida nessa história, Demônia. Não é novela da Globo.

E ela tchum. Mexeu no meu computador. Fuçou no meu arquivo negro. Mudou até o tom da música. Nossa. A música era ótima. No Smart phone dela. Led Zeppelin. Babe, I’m Gonna Leave You. A bicha acreditava que era uma canção de Amor.

Eu: Putz! E é. Você acha mesmo que ele tá partindo o coração dela? Tá nada. A palavra tem muito poder. E uma delas é te iludir. Ele repete isso direto. Que precisa deixá-la. Que precisa deixá-la. Ele diz: “Oh, baby, you know, I’ve really got to leave you. A frase é muito longa. Ele está mentido. E a gente mente mesmo quando está apaixonado. A gente até fica burro. Bicha, é uma canção de amor. E das boas.

A bicha contou que na adolescência em Belo Horizonte… A bicha era roqueira como eu. Desenganada. Até pelos médicos. Ela era dark. Era black. Ela era revoltada.

Eu não era revoltado com nada. Revoltado eram os outros. Os selvagens fingindo que são humanos. Cada vez mais fracos. E maconha babado. Presente do traficante que quer comer a minha sogra. E a minha sogra não é de fumar. Ela gosta de uísque. Ela gosta de um cavalo branco para montar nela. E ela me disse no telefone: Artuzinho, o pau dele tinha só dez centrímetros. Não consegui gozar. Meu ex-marido, pai dos meus filhos, era um jumento e eu uma égua. E eu respondi para ela: Deve ser de família. Seu filho também só gosta de coisa grande. E aí putz! Eu gosto mais da minha sogra que do meu gato preto. Não é mentira não. A mãe dele é vivida. E sábia. Ela me deu conselhos ótimos sobre como conseguir uísque grátis dos coroas nas boates. Eu ria, ria, ria. Só imaginava a cena. Uma mulher super-preta. Cabelo super-black Power. De vestido decotado. Cruza a perna para esquerda e vinha o copo com duas pedrinhas de gelo. Ela dizia. Cruzava as pernas para direita. E vinha um convite para ser rainha do lar. Quantas alianças falsas eu usei. Era só anel. Ai, eu adoro anel. Olha esse. E ela vlapt. Mãos fabulosas de musa da festinha da igreja. Esmalte impala turquesa. Unhas enormes. Ela jogava o ojum. Mas só casava com quem fazia música para ela.

Eu: Cê é brava mulher. Você é uma leoa. Aí ela: Toma leva esse baseado para você. E esse chocolate. Coloca aí o DVD da Elza Soares e me prepara uma bebida.

Ela: Então. Tem esse traficante que tá me dando umas olhadas. Aí eu tava na terceira idade. Lá no Cantagalo com um paquerinha. Aí eu fui ao banheiro. E ele me seguiu. Entrou no banheiro das mulheres. E me atacou. Garoto de 24 anos. Disse que não pode ver fruta madura que já quer tirar do galho. Fazer o quê? Não tinha um policial. Não dava nem para gritar. Fui mordida. Meu pescoço ficou com chupão uma semana. Tava lá em evidência. Uma mancha assim.  Minha vizinha perguntou se eu tinha apanhado.

Eu: Muita fome. Esses meninos só pensam em comer. Fast food urgente. Delivery.

Minha sogra: Me liga e tudo. Olha, ele já me ligou três vezes hoje. Pagou até minha conta de celular para eu poder falar com ele. Botou até internet. Mas eu não sei mexer. Eu sou de provocar. Comigo é no real. Comigo é papo reto.  Essa coisa de mostrar a buceta na câmera… Não dá para mim. Me liga e paga o taxi. Ele trouxe queijo. Ele trouxe vinho. Trouxe café da manhã. Mas você fala não e eles não acreditam. Quando uma mulher diz não, é não, pô. Quando ela diz sim, ela joga até o cabelo pro lado. Ela ajeita até o sutiã para que ele olhe para o decote dela.

Eu: Putz! Vampiro ainda tá na moda? Cortando ela.

E voltando a história. Vocês lembram onde eu parei?

A bicha mineirinha contou que era roqueira revoltada. Todo roqueiro é um revoltado? Eu perguntei: Revoltado ou rebelde?

A bicha demoníaca: Tá besta bee. Eu era do heavy metal.  Iron Maiden, meu bem. E fez o sinal rock’n’roll com as duas mãos.

Mas rebelde vem do castelhano rebelde.  Característica de quem é teimoso. Indomável. Bagunçado. Ninguém me senta. Ninguém me fode. Revoltado é quem não aceita a ordem estabelecida e contra ela se rebela. O revoltado fode. Você fodia ou não quando jovem? Alguém te montava ou você era só comia as sopas de cavalo cansado?

A bicha fez um drama. Com certeza vê a porra da novela das sete. A glamorosa vida besta de uma empregada doméstica pop star. E falou do coming out dela. E da família que era evangélica e ficou chocada. Eu disse: Que preconceito religioso bobo. Os evangélicos de verdade não ficam chocados com a homossexualidade dos outros. A sala Evangélicos HXH é um convite à luxúria. Pecado capital é da cabeça dos católicos. Mas o problema é quando eles querem a cura. Dessa “doença de dar o cu”. O problema é quando eles piram. A bicha católica tem mais dificuldade de se assumir para a família. São as mães católicas que mais expulsam os filhos veados de casa.

A mãe do meu bofe era do terreiro. Ela era do tambor. Tinha uma pomba gira naquele corpo. Não tava nem aí com quem o filho trepava. Contando que usasse o capote no pau e não enchesse o saco com dramas… Ela tava mais interessada em viver a vida.

Já a minha mãe nem ligou. A gente não tinha religião mesmo. Só fingiu que bancou a chocada. E depois perguntou se eu mais comia ou mais dava? Eu falei: Mãe, aí já é capitulo para o meu próximo romance. Você vai ter que esperar sair o livro. E ela ficou curiosa. E preocupada.

Aí a bicha querendo mais cerveja. Achou que eu fosse garçom. Ela tava chata. Muito tempo sem dar a bunda deixa qualquer um chato. Queria que eu me montasse e fosse com ela na inauguração do bar do estudante de medicina que eu já citei aqui no blog. Ia me pagar até cerveja. Só não pagava pó porque não tava tão rica naquela noite. Diga-me um motivo muito especial para eu colocar um casaco e me fazer de vítima num bar? Eu perguntei. Ela: Você vai ter outra história para contar no seu site. Você vai bombar na internet. E aí eu capricorniano não posso ouvir qualquer citação sobre o poder que eu faço a inscrição. Coloquei um pulôver, um jeans clássico, chinelas de forró e um cachecol vermelho só para fazer charme e uma eco-bag com dois litrões de Skol vazios. Só para disfarçar. Fingir que estava procurando o bar aberto mais próximo e já queria voltar para minha própria festa. Descemos.

E sem brincadeira gente. Não me leve a mal se você foi e gostou. Mas só tinha uma coisa boa. A música. Tava tocando Lighthouse Family. E eu entrei no botequim nessa parte. Aquele negão delicioso cantando How many times you gonna let me down? E eu rindo. As pessoas não estavam entendendo nada. Muito cafona. Muito cafona. Tudo fake. Até as neo travas na porta dançando num queijo imaginário. Cobrando pela “entrada”. O garçom disse: Vocês já foram servidos senhores? Eu não me lembro se a Vogue Hommes decretou que os senhores estão na moda. A edição japonesa só tem novinho na capa. Só leitinho esquentando na panela. Aí um negão me esbarrou dançando e pediu desculpa três vezes. Eu: Porra! Já te desculpei. Que você quer? Um abraço?

Ele fez que sim com a cabeça. Ofereceu-me até cerveja. E foi rápido. Ofereceu-me até pau de 22 cm para ser chupado atrás do Galpão da Morada do Sol. 22 cm, ele disse de novo. Passou-me o número do TIM e do Oi dele. O que tem crédito se você quiser me ligar a cobrar é o Oi, ele disse e passou a mão na minha bunda de uma forma tinhosa quando eu dei o abraço que ele tanto queira.  Meu pau até gostou. Se o cérebro fosse lá eu já teria ligado. Eu já estaria gravando o badalo. E as pessoas dançavam sem entender o contexto. E carão, carão. E fotos e fotos. Amanhã o Orkut delas vai está cheio de tudo de bom a sua vida.

E eu não queria ficar lá. Porra. E essa música boa vai acabar… Pega logo as cervejas, pois eu quero voltar para minha casa. Lá é mais seguro. E a bicha rindo num sorriso forçado: Ih! Você agora tá com síndrome do pânico?

Eu não. Putz. Agora eu tenho bom gosto. Achei esse lugar uó. Não curti. E esse pulôver não merece ser fotografo aqui. Olha, ele é xadrez tipo minha vovozinha me deu no natal de 1997. E eu ouço forró. Faço faculdade de humanas. E uso sandálias nordestinas. Vamos voltar agora.

E voltamos. E eu morrendo de rir. A minha risada era assim: Ri, ri, ri, ri, ri, ri, ri, ri. Nem com o fundo musical sensacional e um negão bem instruído me chamando pro abate me convenceu de ficar lá mais que cinco minutos. Será que eu fiquei chato? Ou a vida é chata? O que é chato para você?

E em casa eu numa paz. E a bicha fumando um Derby atrás de outro. Não entendendo. Ela perguntou o motivo das minhas gargalhadas. Eu disse ri porque é assim que deve ser. Ri porque é assim que se faz uma gargalhada. Por que você não está rindo?

Lançou-me um olhar me condenando ao inferno. Ela até fez uma oração falando baixinho. Repetindo mais de uma vez o cruz-credo.

E a vida, puta merda. De noite o diabo. De dia um anjo. Telefone dele também tocou. Alguém disse a ele que a minha novidade era negra.

Quem é, bicha? Mostra aí. Trouxe chocolate Laka. O anjo disse: Tenho cinquenta reais para gente tomar uma cerveja e dar um tiro. Bota um casaco e vamos descer. Você precisa conhecer também os paus que estão circulando nas ruas da Vila. E eu não pensei duas vezes. Um casaco do AFC de Três Rios. Um short da Adidas e já estava no Bar do Paulinho. Uma Brahma e dois copos, por favor. A gente quer bater uma palma na rua. Um homem moreno faz tudo de profissão até disse que por 20 reais ele tava até casando hoje e desquitando amanhã. Eu não dei a menor ideia. Achei que ele se vestia errado. E segui com a fofoca. O anjo disse. O anjo era o Fabian. O demônio, Rogério. Fabian disse: Olha bem para esse céu. A gente pode nunca mais ver um céu tão azul te chamando para tomar banho de rio. Eu suspirei. Eu suspirei. A vida real é boazinha com a gente. Não demoramos duas cervejas e o anjo já queria uma droga. Ligou para o disk 24 horas e a mercadoria chegou num carro vermelho. Tá a fim de ficar nervosa? Ele perguntou com sarcasmo.

Eu com a nota já fazendo o canudo.

Foto: O top baiano Ramirez Allender fotografado por Andréa Faria.

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