O que é mais violento que o próprio desejo?

 “A cada vez que alguém sente o apelo da diferença em seu desejo, provavelmente terá que vencer séculos de repressão, para chegar ao epicentro do seu eu”. (João Silvério Trevisan, em Devassos no Paraíso)

 

E se passou quase uma semana e eu voltando de um almoço incrível no apartamento do Fabian, a irmã do Bruno me parou para saber se ele ainda ia à minha casa. Ela disse que ele falava de mim todos os dias.  Mas a mãe deles não queria que o Bruno me procurasse mais e ficasse “me enchendo a porra do saco”.  Eu só sorri e disse meia dúzia de palavras. E foi bom saber que ele pensava em mim.

Minha a família é contra o nosso romance também. Afinal, o Bruno é um maluquinho. Um viciado em pedra que já foi internado diversas vezes e é um paciente do CAPS que não é bem-vindo. O que ele tem? O que ele tem?

E eu desci para tomar umas cervejas e encontrei com ele na porta do bar da Ana. Conexão imediata. Eu achei que ia pegar fogo e acabei comprando dois litrões e voltei para casa convidando-o para tomar um copo comigo. Não demorou nada, não deu tempo nem de abrir a primeira, ele me chamou no portão.

Ele entrou. Tranquei a porta, dei um copo para ele. Ele tomou numa golada só e foi para o meu quarto. Encostou-se na parede. Segui com os copos e a Skol. Sentei na cama. Bruno queria saber o que a gente ia fazer. E perguntou se podia tirar a roupa. E deitou-se na cama e pediu que eu fizesse o mesmo.

Tirar a roupa é comigo mesmo. E já estava excitadíssimo quando eu me deitei ao seu lado. O friozinho que fazia naquela noite exigiu um edredom por cima dos nossos corpos. E aí a gente se beijou. E se beijou. Bruno beijava bem. E além de lindo, ele tinha uma boca gostosa. E um gosto bom de boca. Eu elogiei. Chamei-o de lindo também. Disse que gostava dele. E ele retribuiu. Disse que eu não ficava atrás. E que sentia a minha falta.

E acabou que nós dois nem transamos. Ficamos brincando de se amar. E ele contou sobre o vício dele em drogas. E das outras bichas que o ajudam a alimentar esse vício em troca de sexo. E por uma pedra ele tem feito de tudo com os caras. E Bruno é um garoto bonito. Hoje mais ou menos. Ele está maltratado. E perdido. Esse crack é uma maldição. Maldição!

Eu me lembro da primeira vez que eu o vi na Rua Professor Moreira no Bar do Jair, eu me encantei de imediato. Arrastei-o pra minha casa. E transamos como loucos. No quarto. No chuveiro. E no quarto de novo. Conversamos sobre isso naquela noite. Aí ele falou que tinha uma menina dormindo na casa dele. Que o certo, segundo ele, era comê-la. Ele repetiu: “Eu devia meter a vara nela”. Mas aí ele mudou de assunto e me beijou de novo. E emendou outra história. Disse que tem um cara na rua dele (Bruno mora perto do Rodrigo Lacraia e do Fábio Aragão, para os íntimos Fabeth) que fica chamando-o de veado. Por causa do seu andar singular. Uma das coisas que eu acho mais charmosas nele. Ele então me perguntou se eu achava que ele era gay. Perguntou se o andar dele era de bicha.

Eu respondi, passando muito a minha mão na bunda dele: “Talvez o veado seja ele. Que aponta. Quem sabe ele não está afim de você”?

Ele queria que eu explicasse. Explicasse o quê? Que o Bruno é gay e o cara que o chamou de veado estava certo? Ou que o cara que chamou o Bruno de veado era um dos nossos também? Aí eu completei citando um ditado espanhol: “Dize-me o que alardeais e te direi o que te falta”. Na verdade eu disse: “A gente só implica com o que se quer para gente”.

Aí Bruno fez o discurso clássico do gay enrustido. Ele disse: “Se ele disser que eu sou veado, eu juro que como ele na porrada, meto uns seis tiros nele e acabo com raça dele”.

Entenderam? Entenderam a vontade de dar “porrada”? E Bruno só se relaciona sexualmente com homens.

Eu pedi para ele voltar no dia seguinte para gente continuar a conversa. Aí eu dormi cedo. Ele apareceu e depois eu soube que o expulsaram do meu quintal. Soube que teve um pequeno tumulto. E ele foi para casa dele sem me ver.

*****

Hoje pela manhã, eu estava no CAPS. Lendo a Marie Claire de fevereiro. Ele apareceu por lá.  A gente se viu.  E eu fiquei feliz. Não disfarcei. Bruno se sentou à mesa que eu estava. Ficou me olhando. Encarando-me. Encarando-me. Ele confirmou que não tinha furado comigo naquele dia. Foi ao banheiro. Depois voltou e disse alto: “Você acredita que o pessoal achou que eu queria te matar”? Chegou mais perto e falou baixinho: “Mas você sabe muito bem o que eu quero fazer contigo”. E riu. Um riso assassino.

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