Linda, uma história horrível

Quando eu acordei, eu estava completamente nu e sem edredom. Com o ventilador ligado na potência dois. Um frio. No cu da manhã. O que aconteceu? Meu Deus do céu…  O jeito era levantar da cama, desligar o ventilador e procurar por pistas.

Muito raro eu dormir peladão. E para isso acontecer, eu tenho que estar com alguém ou muito bêbado. Ai, não. Arrastei um dunda para minha casa. Ih! Deve estar dormindo no sofá. Ou caído muito louco no chão do banheiro.

Levantei. Puta que o pariu. Olha o estado da minha calça. Toda suja de barro. E umas manchas de sangue. Ou será vinho? Será que eu caí? Ou melhor, será que eu caí nos braços de alguém? Puta que o pariu de novo. Peguei minha calça. Examinei meus bolsos. Achei nove reais e 35 centavos. E nenhuma camisinha. A cueca Zorba manchada de porra. O par de All Star azul, presente do Davi Cittadino, mais sujo ainda. Falta achar a camisa.

Cozinha. Na verdade é uma cozinha-sala. A camisa jogada no sofá. E… Ufa! Não tem ninguém aqui. Ninguém. O jeito é fazer um café bem quente, preto e forte. Por falar em bem quente, preto e forte, me lembrei de tudo.

Resumindo: Eu estava deprimido. O garoto que eu gosto não tá nem aí para mim. Mas fica puto porque todos os meus textos terminam em sexo. “Com um negão”. Ele quer que eu escreva um texto mais real. Que eu me foda no final ao invés de ser fudido. Então, bebi todas pela rua. No final da noite, depois de tomar dois litros de caipirinha, muitas cervejas e uma dose de menta, queria buscar uma saideira. E entrei nesse bar da subida da Morada do Sol que estava fechando. Como todos os bares da Vila. Pedi desconto e comprei uma sacola de latão de Skol. Meu consolo. Pelo menos eu ia para casa. Colocar a Ella Fitzgerald para eu chorar e beber até desmaiar. Talvez eu tocasse uma punheta. Sim, eu estava com tesão.

Na Praça do Zumbi, um cheiro de maconha do caralho. Procurei. Procurei para saber quem estava fumando.  Três negões da rua K “queimando tudo até a última ponta”.

Mês de maio. Véspera de lua cheia, três negões dando sopa. Camisinhas no bolso. Uma bolsa cheia de cerveja. Maconha. Rua vazia. É o destino, gente. O fabuloso destino.  Meu instinto de lobisomem. Só seguir o caminho e abater as próximas vítimas.

“E aí gatinhos. Pode dar uma bola?” E balancei a sacola no alto com as cervejas.

“Sobe aí, maluco”.

“Destino”… Sabe? “Por que fazes assim? Tenha pena de mim. Veja bem não mereço sofrer”. E o garoto que eu gosto quer que eu conte uma história triste. Ih! Sentei-me no meio. Entre um dundum comum e outro horroroso. Preto para caralho. E um cheiro de homem. Homem trabalhador. E na minha frente: um sonho de consumo. O nego que toda bicha sonha. O nego dos contos eróticos do Mix Brasil. Alto, musculoso (humm…) bem vestido. Cara de safado. Desses que ficam mordendo o lábio inferior e alisando a barriga. Tênis, Skinny jeans e camisa xadrez aberta.

O baseado estava morrendo. O negão horroroso pediu para apertar outro para eu poder fumar direito. Aquele deus precioso tirou do bolso da camisa xadrez um pacote de pure hemp e uma bucha responsa. E levou. Ai, ai. Ele passando saliva no cigarro de maconha. Que cena linda. Eu tomei uma golada da minha Skol geladinha. “Esse vai ser o melhor baseado de todos os tempos”.  Eu disse já pensando em bobagens.

O garoto horroroso puxou assunto. Não me lembro de nada. Só lembro-me daquela boca passando saliva no cigarro de maconha. Eu disse: “Maconha é bom, né?” E a minha mão esquerda vai vapt no corpo do garoto horroroso. Quando também eu, depois de largar a lata de cerveja entre as pernas, passei a mão no garoto comum. Minhas mãos sabem o que é bom para sorte.  E eu tentando me concentrar. Uma história triste. Uma história triste.

Fumamos. E tava rolando uma sequência de funk no celular. Coisas como bonde do Pirú Sem Freio. E o garoto horroroso num papo picante comigo. Uma hora ele disse: “Você sabia que cu de bêbado não tem dono?”

Eu (super esperto, super esperto): “Mentira. Se você quiser, ele vai ser seu”.

E mãos. A mão dele alisando a minha bunda. E a minha, a perna dele.

Ele: “Pô, o problema é que ninguém me quer”.

“Acho que você é cego. Eu estou te querendo”.

Avancei o sinal e a gente se beijou. E a mão do garoto comum alisou a minha bunda. Opa!

Depois do beijo. Eu um pouco sem ar. Perguntei se não tinha um rock’n’roll para tocar. Que funk era chato. O dunda horroroso mexeu no celular. O garoto precioso também. Um Motorola preto. Adoro preto! De sei lá quantos chips. Abriu a pasta de música e deu play numa canção do Cazuza.

Olhei para ele. Tão fácil olhar para ele. Parei de dar atenção aos meninos e me levantei para… Hum… Ver melhor as músicas que ele tinha no celular. “Que mais você tem de rock?” Eu olhando. Muito pop/rock nacional. De Legião a Detonautas. Minha mão direita fazendo reconhecimento daquele corpo repleto de músculos. Não é culpa minha. Não sou eu, é minha condição genética. Eu me divertindo quando o garoto horroroso perguntou: E aí, qual vai ser?”

Eu: “Nós quatro? Ali atrás do Galpão da Morada do Sol?”

E fomos todos. Todos me agarrando. E na quebrada, eu fiz com que eles ficassem pelados. E tirei uma faca do bolso e esfaqueei os meninos. Muitas facadas. Jorrou sangue por todos os lados. E os corpos na lama. Nus. E finalmente eu tinha uma história com final diferente para mostrar para ele. Senti-me mal. Quis vomitar. O que a gente não faz por amor. Matei meus desejos por causa dele. E tomei o resto da cerveja. E me senti infeliz.

 

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