10 dicas preciosas para saber se o bofe é ativo ou passivo

Finalmente o friozinho chegou. Não sou fã do frio, mas gosto do vestiário de inverno. E choveu. Choveu para caralho nesse feriadão. Outro feriadão. Outro! E depois de me ligarem três vezes e me buscarem de carro. E alguém ter feito a minha barba, porque eu me corto mais que travesti na pista em São Paulo quando vê a polícia, eu decidi ir a uma festa de aniversário de gente branca num bairro vizinho com DJ e tudo para preparar alguns coquetéis para os convidados. Tomei um banho caprichado. Lavei os cabelos com o xampu novo. Desodorante nas axilas, hidratante no corpo e perfume nas orelhas e pescoço. Escolhi a roupa: Calça oversize com uma lavagem incrível, sapatos e meias pretas. Cueca modelo boxer preta. Adoro preto! Camiseta regata bem bicha, um maxicolar e um casaco vintage da minha irmã. Para que casaco? Escovei os dentes. Camisinhas nos bolsos. Bastante. Uma mixaria para gastar mais tarde. Peguei minha coqueteleira. Coloquei tudo numa bolsa amarela com estampa do Romero Brito. Descemos.

No carro, soube o que eles tinham comprado para fazer os drinques. Faltavam alguns ingredientes. Passamos numa distribuidora aqui na Vila Isabel que fecha depois da meia-noite. E satisfeito com as compras, mandei o motorista seguir para a festa.

Casa do aniversariante tocando sertanejo. A febre do momento. A febre que não passa. Ninguém dançava. Todos isolados num canto bebendo cerveja. Skol. Litrão. Hum… Olhei pro DJ. Era um moreno de vinte e muito poucos anos com uma camiseta de marca surfwear e jeans. Sem acessórios. Vou deixar essa gente bêbada e mudar essa porcaria de som.

Fui para cozinha e a mãe do aniversariante me foi apresentada. Encheu meu saco. Queria saber que tipo de bebida eu ia fazer. E se eu fazia algum coquetel com champagne.  Trouxe umas garrafas. Não era champagne. Dessa vez eu quis saber onde estava o saco de gelo. E o liquidificador para preparar uns bebidões para servir de uma vez a galera.

Fiz os meus clássicos e enchi umas garrafas em segundos (o tempo médio para um barman preparar um drinque é de 48 segundos). Tinha bebida o suficiente para algumas horas. Servi numa bandeja de alumínio uma mistura de coquetéis. Como assim? Enfeitei a bandeja com copos com bebidas diferentes. Deixei a bandeja bem colorida. O que despertou curiosidade entre os presentes e eu pude conhecê-los. Só gente branca. E finalmente fui até o DJ. Disse: “experimenta”.

O DJ: “O que é isso?”

“O que é isso o quê?” eu perguntei.

“Esse negócio azul?”

“É o Zuzu. Meu drinque de sorvete e aguardente de lima. É o meu maior sucesso”. Falava bem próximo ao ouvido dele. Seu cheiro era ótimo. E ele era bem bonitinho também.

Ele provou. Fez cara de que estava bom. Agradeceu.

“Depois eu volto”. E saí com a bandeja quase vazia. Fui preparar uma caipirinha. Pra mim.

Partia um limão em quatro partes quando um garoto muito branco de olhos claros perguntou o que eu estava fazendo. Era o aniversariante. Um desses garotos que as revistas e os blogs gays brasileiros vendem para as bichas como objetos de desejo. E por motivos óbvios, nunca me interessou. Como se no Brasil só existisse gente branca.

“Uma caipirinha para mim. Um dos cinco coquetéis mais sofisticados do mundo”.

Ele pediu para eu preparar uma para ele. E cruzou os braços. Acho um péssimo sinal. Ele ficou me olhando como se eu fosse empregado dele e tivesse obrigação de servi-lo.  Eu, que não valho a cachaça vagabunda de garrafa de plástico que eu tomo com suco Fresh de maracujá batida no liquidificador com bastante gelo, parei o que estava fazendo. Tomei um gole da minha bebida e pedi que ele pegasse uma Skol para gente. Ele abriu a geladeira e era uma geladeira incrível de inox e depois de pegar dois copos e o abridor que estava pendurado, abriu a garrafa e me serviu primeiro. Eu brindei. Bebi. Bebi mais um pouco e aí sim continuei no preparo da caipirinha do aniversariante. Ele nervoso com a minha displicência. O quê? Tá achando que eu nasci para servir os outros? E ainda fui mais abusado. Pedi que ele me ajudasse a servir os convidados.

Ele fez uma cara mais horrível ainda. Por mais que eu prefira os homens que aparecem no blog Hot’n’koll ou no blog dos Vídeos dos Crioulos do Brasil (um tempão que eles não atualizam), ele até que era interessante. Sabe esses meninos que a gente vê em Minas Gerais? Principalmente em JF na night? Esses que quase não tomam sol? O aniversariante era assim. Clarinho, clarinho. Bem vestido. Calça apertada marcando as pernas malhadas (será resultado de quem puxava ferro?) e a bunda. Bunda de gente branca, sabe? Sem muito volume. Um metro e 80 mais ou menos. Tênis Nike. Relógio. Cabelo muito bem cortado. Pele boa. Barba bem feita. Ele seria capa fácil da revista Júnior.

Eu adorava o André Fischer. Por causa dos seus artigos na extinta SuiGeneris. Por causa do Mix Brasil e da rádio DJ Mix. Até que ele lançou a Júnior. Fabian comprou e me ligou empolgado. Folheei a revista e nada dos dundas. Com exceção da propaganda da Calvin Klein. E nada dos dundas nos números seguintes.

E ele me ajudando a servir, até que ficou mais fácil. E as pessoas foram ficando bêbadas. E o DJ mudou o ritmo. Agora tocava o maldito funk carioca. Alguns dançavam timidamente. Eu servia o DJ toda hora. DJ? Tem certeza? Hoje qualquer babaca com um laptop e umas centenas de músicas baixadas ilegalmente com um fone de ouvido acha que pode ser DJ. Minha entidade salvadora de festa ruim foi incorporando. O DJ Artur Massai queria se manifestar.

Aí preparei duas caipirinhas. Uma para mim. Outra para o moreno gatinho que tocava aquela sequência de gosto discutível. Cheguei nele. Brindamos primeiro. Bebi, ele bebeu. E mexendo no computador. Vendo o que ele tinha de música. Achei uns hip hop babadeiros. Começar com o que para cortar essa vulgaridade? Minha entidade: “começa com Rihanna. ‘Umbrella’. Essa é tiro e queda”. Depois de um desses Mcs bocós cantando outro hit “vai novinha”, a vontade de mudar para melhor o som da festa foi mais forte que eu. Apertei o botão certo e o Jay-Z anunciava que a Rihanna estava de volta.

Uma menina linda. Com um vestido maravilhoso comprado certamente em loja de departamento veio correndo dizer para mim que adorava aquela música.

Eu disse: “eu adorei o seu vestido, isso sim”.

“Eu comprei na Leader Magazine”.

“Lindo. Lindo”.

Ela: “O que vocês têm aí?” E encostou-se a mim para ler a lista de hip hop. E: “Toca essa?” Era outra canção babadeira. Que as bichas adoravam. Eu: “Ih! Você é das minhas. Vou preparar uma bebida para você”.

Fiz um coquetel básico e enfeitei num copo longo incrível e servi a garota do vestido singular. O DJ ficou um pouco… Hum… Enciumado. Talvez. Ele perguntou se eu gostava de hip hop. Eu disse que era ótimo para criar um clima. E que sempre funcionava. O DJ escolheu as próximas faixas. Enquanto isso, mais bebida para o povo. Meu plano “maligno” estava funcionando. Achei uma garrafa de Red Label lacrada. Puxei o aniversariante para o mini bar e com um sorriso pidão perguntei “pode abri?”

Ele: “Lógico. Fica à vontade”.

Eu: “Cadê seu copo?” E perguntei o que ele gostava de ouvir.

Ele: “Qualquer coisa”.

Personalidade fraca. Engatei: “Vou colocar uma música especial pelo seu aniversário”. E a minha mão tocando no braço dele. Eu voltei para a cabine do DJ saltitante com dois copos, a garrafa preciosa e um pequeno balde improvisado com gelo. Enchei nossos copos. E tim, tim. A última vez que eu tomei uísque, meu irmão ainda estava vivo. Lembro que no dia seguinte vomitei até a alma. Mas quem liga para isso? “Mais uma dose é claro eu tô afim”. Será que tem essa música? Procurei. Achei, primeiro, a nossa diva falecida. Whitney? Não! A outra que também fumava crack. Amy. Santa Amy.

A menina do vestido extraordinário veio de novo correndo dessa vez com uma amiga. Vestido da amiga lindo. Ela: “Adoro essa música”. Eu: “quer uísque?” Ela bebeu. A amiga dela bebeu. Falei para elas que estava procurando Cazuza. Ela: “Vai ser ótimo se você achar. Depois podia tocar Cássia Eller”. Olhei para ela. Fiz uma cara de aprovação e disparei: “Ê, ê. Você é das minhas mesmo”. Ela disparou a rir. E achou na pasta “Rock Brasil”.  Qual música? “Eu quero a sorte de um amor tranquilo…” Sai da cabine para dançar com elas. Com o copo na mão. A mãe do aniversariante pediu que eu alterasse um pouco as faixas. Ou seja, queria que eu tocasse as velharias e as chatices dela. Imediatamente fui até o computador e achei um sucesso do grupo Roupa Nova. “Uísque a Go-Go”.  A mãe e a amiga e mais uma penca de gente mais velha se lenvatou das mesas e invadiram a pista de dança. As pessoas mais novas também. Inclusive os dois que foram me buscar de carro. O aniversariante surgiu com uma garrafa do meu coquetel mais famoso. Dançando. E com o efeito das luzes coloridas parecia que eu sonhava. E uma sequência de músicas dos anos 80 e 70. Principalmente Disco Music. E eu amo Disco. E que veado não gosta? Tava dançando e bebendo e procurando uma novidade. Achei num CD da Jovem Pan com a Adriane Galisteu uma versão cover ao vivo de “I Will Survive”. Foi a próxima. E ouvi até gritinhos dos dançarinos. O DJ ficou rindo. Ele disse: “Essa música é muito gay”.

Eu: “O Elton John acha que ‘Born This Way’ é a música mais gay de todos os tempos”.

Ele arregalou os olhos. E “Eu tenho essa música”. Todo mundo suspeito tem essa porra.

Fui até a cozinha preparar outra bandeja colorida e servir a rapaziada.  O aniversariante entrou com a garrafa vazia. Ele meio que me abraçou. Achei que ele ia me beijar, mas ele disse apenas “essa bebida é uma delícia. Tem mais aí?”

Eu olhei no Freezer e não achei. Depois eu disse que prepararia mais uma dose caprichada para ele. E foi o que eu fiz. E na pia da cozinha com os ingredientes certos e o liquidificador. Ele tocou nas minhas costas e encostou-se a mim. Tive uma pequena ereção. E pensamentos obscenos. Ele queria saber que ingredientes eu usava. E tocou no meu quadril tentando se equilibrar atrás de mim como se fosse me enrabar naquela posição. Tive um pensamento ainda mais obsceno.

Depois de batido, dei a ele um copo para que ele experimentasse. Ele gostou e sorriu. Enchi a garrafa para ele com a ajuda de um funil. E ele voltou para a pista. Antes disse: “Você é foda”. E piscou.

Fiz mais da bebida azul e levei para o DJ que perguntou se eu queria deixá-lo bêbado. “Essa é a intenção” respondi com malícia. Voltei com a bandeja com uma variedade de coquetéis e servi os convidados. Alguns me elogiando. Elogiando as músicas e as bebidas. Voltei para o computador e para o meu copo sagrado de uísque com gelo e achei uma música do Michael Jackson.

Eu disse pro DJ: “Ele era um louco. Clareou a pele, alisou o cabelo, deformou o nariz, cortou 10 centímetros do pau pra ficar branco”.

Ele riu as gargalhadas. E pegou no pau. Eu olhei. Ele percebeu e “É porque ele nunca se aceitou homossexual”.  Aí: “Eu não tenho nada contra, tá ligado? A pessoa tem que ser o que é. Independente do que os outros pensam de você”. Lembrei a ele que a gente vive num mundo completamente homofóbico. E que nos Estados Unidos matam-se muitos negros. Que os americanos eram racistas para caralho. Mais que a gente. Se aqui no Brasil a gente mata as bichas, lá eles matam os negros na mesma proporção.

É a lei da tal normalidade. A pessoa tem que ser branca, religiosa e heterossexual. E careta. Droga é um tabu. Tão perigoso quanto dar o cú. É por isso que as bichas lotam as academias para serem vistas como normais. Alisam os cabelos. Vestem-se muito parecidas como os bofes. Camuflam-se. E se tornam invisíveis. É a mesma coisa para as mulheres e o padrão de magreza. Para que ser tão magra? Para desaparecer ao lado de um homem. O que é a Victoria Beckman? Um palito de fósforo? Não. Ela é uma mulher invisível.

E tem que magra/magro para quê? Por quê? Olha, que quem está falando é uma pessoa que tem o IMC menor que o da Gisele (E tocava A-Ha, “You Are the One”). E eu sempre fui muito magro. E ouvi piadas horríveis na escola por causa da minha magreza excessiva. Alguns diziam para me amarrarem a um barbante para eu não voar com o vento. E eu cresço com o mundo da moda nos anos 90 louvando os muito esguios. A Kate Moss era a imagem da década. Uma mulher seca sem expressão. E morta.

A anorexia cresceu demais nesse século entre os homens (gays). E essa história de tem que se aceitar de jeito que você é, é uma bobagem. Sabe, “Born This Way” é canção de autoajuda. As bichas não querem quem está fora de forma. Com exceção dos ursos. Que são divinos.  Nos classificados das revistas gays ou nas salas de bate-papo, as bichas rejeitam os gordos. Elas deixam isso bem claro. E lógico: as bichas têm horror aos afeminados. Porque têm horror a bichinha que elas são por dentro? Não querem. Dão preferência para os machões. Os sarados e, provavelmente, ativos. E “normais”. Os que parecem com os heterossexuais. Aliás, muita bicha burra procura ter relação com caras que se autodenominam heterossexuais. Ou querem ser tornar mulheres. Não se esqueçam que o índice de suicídio entre os transexuais é sete vezes mais alto que o de heterossexuais. Há muito arrependimento depois da troca de sexo. E frustração.

Sim, sim, sim. O Brasil é o país que mais mata GLBTT no mundo. 70% deles são travestis. E as mortes são muitos cruéis. É para matar “bem morto”. Para não ter traço nenhum de veadagem no ar. E essa história de se aceite como você é, repito, tem muita luta e violência encravadas. Mas se você for um idota burro e cheio de preconceitos, mude. Mude para melhor. Eu continuo magro. E mudei porque me amo. E amo o próximo. Até os escrotos. Até a Madonna que é referência para quem tem mais 30 e dizia para gente se expressar e ser que é, pois somos uma super estrela mudou. A Madonna vive mudando. O tempo todo. Aí eu disse: “Vamos trocar essa música?”

A festa naquela hora pegava fogo. Achei uns rock’n’roll antigos. Uns clássicos. E aquilo me libertou. Precisava dançar. Dançar mesmo. E pensar. Antes um pouco de Chuck Berry. Ai, é mágico!  Jerry Lee Lewis. Elvis.  Beatles. Little Richard.  Ray Charles.  Depois engatei um Footloose para libertar meus demônios.  Porra! Qual é o caminho da homossexualidade hoje? O que as bichas precisam aprender para serem gays de verdade. E com orgulho? E sem medo?

Todas as bichas gostam de dar. Ou querem dar o rabo. Nos anos 70, na terra do tio Sam, as bichas andavam com lenços no bolso da calça. Agora eu não me lembro de qual lado o lenço ficava quando elas sinalizavam que eram ativas ou passivas. Essa velha história do brinco na esquerda ou na orelha direita. Hoje… Uma incógnita. Quase ninguém mais é o veadinho das piadas. O rapaz alegre das piadas medíocres e que era a vergonha da família. O desprezado.

O problema de ser passivo é acreditar na rejeição do pau. Explico: a famosa paranoia da passividade do homem gay. No imaginário popular, o homossexual é aquele que despreza o fálico (favor ler: “O Fantasma do Masculino” do fantástico João Silvério Trevisan). Tudo bem entupirem as academias para vocês ficarem cada dia mais fortes e másculos. Ou transformarem seus corpos com a ajuda de operações plásticas. Eu gosto de ver gente bonita e vaidosa. E machos. E de bichinhas também. Eu me lembro das minhas amigas travestis nas pistas da vida dizendo que só não cortam os paus por medo de perderem seus empregos. E lembro-me de uma frase que a Cléo disse uma vez no bar Iluminados “E o que eu sou é também o que eu escolhi ser. Aceito a condição”. E isso me fez pensar. Sim! É bom para caralho receber uma piroca no rabo. E enrabar os outros também. Principalmente um bem machão.  Quem se importa? Uma vez conheci um cara loiro da cidade maravilhosa que gostava de dar, mas dizia que era ativo, pois gostava de comandar a relação amorosa. Isso é uma ótima. Ser passivo é coisa do passado. A onda do momento… Então, esqueçam as dicas, as formulas pré-fabricadas. Esqueçam o que eu disse. Infelizmente ou felizmente não existe dica. Não existe fórmula. Não existe. Não existe mesmo. O melhor nesse jogo de gato e rato é descobrir quem vai ser caçado. Mas isso não é nem um pouco importante.

E mudamos o ritmo. Tocamos um som de boate. A galera já estava bastante bêbada. Até o pessoal da melhor idade. E como eu já viajei muito nessa vida para ser o que eu gostaria de ser e dançar. E dançar. E dançar. Reuni a menina do vestido bonito com a amiga, a mãe e o aniversariante, os meninos que me trouxeram de carro, o DJ e gritei alto “Aconteça o que acontecer hoje a gente vai ser o que a gente quiser”. E ativar! A festa transformou-se na melhor de muito tempo. E a música dizia “não quero luxo, nem lixo/ quero gozar no final”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s