Os evangélicos e a minha homossexualidade

Eu estava zapeando a tevê enquanto aguardava pelo novo episódio da nova temporada de Os Simpsons na Fox. Passei pelo canal 16 (Sesctv) e acabei assistindo ao “A Fé e o Arco-íris”. Um programa sobre o que os evangélicos pensam sobre a homossexualidade. As opiniões são sempre as mesmas. E quase sempre são ofensivas às bichas. Uns diziam que Deus (quem?) não criou os homossexuais. Discurso de sempre, sabe? Aquele: “Deus criou o homem e a mulher. E não os homossexuais”. Outros declaravam que os gays (vocês sabem que para eles homossexuais são sempre homens) tinham o diabo no corpo.  E outras opiniões como “Homossexuais são sem vergonha”; “são doentes”; “que é um estilo alternativo de vida”, etc., etc.

Até que um pastor disse em alto e bom som que as bichas não eram bem vindas na igreja porque homossexualidade era pecado. Pouca vergonha. E falava, rindo, outros também falavam a mesma coisa, que não tinha nada contra os homossexuais e sim contra a prática homossexual.

Aí eu parei de assistir. Afinal, Os Simpsons tava começando. E o criador de Os Simpsons nunca me ofendeu. Nem na época de Life in Hell que tinha um casal gay na tirinha.

Quando eu estava com oito anos, eu tinha uma “namoradinha”. A Beatriz. Uma dunda incrível, irmã do Zuzu. Que cresceu e virou um deus e deu nome ao meu mais famoso coquetel entre os roqueiros. Sabe aquele drinque azul de sorvete e aguardente de lima? Então, a Beatriz era evangélica e um ano mais velha que eu. Ela me dizia direto que o pastor dela tinha dito que os homossexuais iam para o inferno. Estava escrito na Bíblia.

E eu morria de medo. E a minha mãe e o meu pai (Tefinho) ganharam do sócio deles, que era evangélico, uma Bíblia e uma coleção de livros sobre sexualidade do casal. O nome era “Amor e Felicidade no casamento”. Título original “Muss Liebe Blind Sein?” de Fritz Kahn. Que metia o pau nas bichas. Dizia que era homem que se deveria evitar. Monte de preconceitos. Aí, eu que achava que estava condenado, afinal eu tinha uma “namorada”, mas brincava de pique esconde com o Zuzu e o Fabinho (outro dunda) e a gente escondido ficava se roçando, comparando o tamanho dos paus, deixando colocar na portinha. A gente fazia troquinha.

E eu confesso que gostava mais de brincar de pique esconde com os dundas que ficar beijando a Beatriz. E ainda tinha um tesão avassalador pelo Alexandre (que mais tarde ia ser meu amante e acabou morrendo de overdose de crack). Por isso, eu abria a Bíblia e ficava lendo o Apocalipse. Esperando pelo fim dos tempos e a minha condenação ao inferno.

Aí eu quis ser padre. Achei que seria minha salvação. Ironia, né? Um padre gay. Melhor, um homossexual latente candidato a padre. Fui fazer primeira comunhão. Meu irmão ria. Minha mãe debochava. Eles diziam que religião não era sinônimo de salvação. Meu irmão sempre foi ateu. E a minha mãe até hoje fala que não nasceu para se vestir de Bíblia.

Com o tempo eu desencanei. E desisti de ser padre ou católico. Ou religioso. Eu queria outra coisa. E já estava na época da descoberta do corpo. A fase da punheta. E tinha achado umas revistas de sacanagem do meu pai… E chamava os dundas para minha casa para mostrar as revistas só para ficar olhando eles se masturbando.

Hoje eu adoro ser gay. E não tenho religião alguma. E nenhum problema com isso.  E sei que desde que era garoto, eu sempre gostei de dunda. Gostava até de brincar com bonecos negros. Não tinha na época para vender. Lógico. E então eu criava meus próprios brinquedos fazendo bonecos de papel jornal e fita adesiva. Quando eu comprei meu primeiro boneco negro… Eu já tinha 20 anos!

Aí, eu estava voltando da Lanhouse e passei pela igreja de uma divindade de ébano que sempre me chama para assistir uma missa. É missa que se fala ou é culto? Eu nunca vou. Eu nunca vou porque eu não acredito. Mas hoje ele tava lindo. Mesmo com aquele terno largo, marrom, com corte horroroso. Lindo. Lindo. Lindo. Ele é alto, dentes perfeitos e brancos, cabelo bem raspado, barba bem feita, corpo em dia… Corpo de quem come as verduras e legumes que a mamãe faz no almoço. E hoje ele me chamou de “grande Artur” e riu. Eu ri e disse “oi”. Caminhei um pouco e depois olhei para trás. Ele ainda estava me olhando. Rindo e me olhando. Lindo. Lindo. Lindo.

Ah! Eu vou ligar para o Supita (Sopita) para gente aparecer lá na igreja dele uma noite dessas. Para eu rezar, sabe? Rezar para não agarrar aquela coisa divina. E pecar. E pecar muito.

Se eu não sou bem vindo nas igrejas evangélicas porque eu sou homossexual, aquele nego crente é muitíssimo bem vindo na minha cama. Bem vindo sempre. E que Deus abençoe.

model:  Stanley Eoty :: portfolio: http://www.modelmayhem.com/366700

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s