Com licença, eu vou à luta

Tomar no cú para mim é um elogio, mas naquele domingo eu estava precisando. Terminei minha noitada numa mesa de botequim com lutadores de jiu-jítsu. Jiu-jítsu? Puta que o pariu, veado. Realizei um sonho (erótico). Peraí que eu chego lá.

Tava quá, quá, quá, quá, quá vendo Stand-up Comedy no Tudo é Possível da Record quando minha mãe me chamou para tomar uma cerveja no bar do Carlinhos. Ela nem tinha dormido direito pensando na festa que ela não foi do dunda da Abrafer. Ela disse: “Chegar lá ia ser fácil. Era só pegar um mototaxi. Mas como é que a gente ia voltar daquela lonjura?” Se eu fosse sozinho, voltaria caminhando e cantando, mas minha mãe é uma senhora de 62 anos. Não tem mais toda a energia da juventude. Então, perdemos um festão com DJ e o caralho. Será?

O jogo do Flamengo já tinha começado quando minha coroa entrou no chuveiro. O que eu estava fazendo nessa hora? Depois, foi a minha vez. Tomei um banho rápido. Um banho de homem. Cueca preta, meias pretas, calça escura, camiseta preta, tênis da Adidas preto. Ai, eu adoro preto. Escovei a dirce, passei hidratante na Natura na taquara, chuchu gritando, não fiz e perfume nos lugares estratégicos do corpo. Sei lá nos braços de quem eu terminaria o dia. Descemos.

Aí menina… Não foi minha culpa! Tinha um dunda sujo e bêbado descendo a rua K. Interessante. Ele cruzou nosso caminho. Eu olhei para ele, ele olhou para mim. Hum… Esse corpo já me pertenceu. Ele abriu um sorriso e levantou a mão para me cumprimentar. Mãos cruzadas, ele coçou a palma da minha mão e piscou. Vocês sabem o que isso significa, né? Ele disse: “Você é maneiro. Você é meu parceiro”. E me puxou em direção a ele. Ele ia me beijar no meio da rua. Eu estava sóbrio. Achei melhor não.

Cá entre nós: Quando eu trabalhava na loja da minha mãe e ganhava muito bem para isso, era fã de comprar na Budika. Passava lá e levava uma calça da Zoomp, um t-shirt da Zapping, um tênis de grife. Cueca era sempre Zorba. Não comprava lá não. Aí chamava meu povo e ia beber nos bares do centro. Depois, estava lá eu com um copo de drinque numa boate. Eu não perdia uma boate. Abria uma, lá estava eu. Com um copo de drinque. Viajava, estava eu lá. Na boate. Com um copo de drinque. No final da noite, no caminho para casa, encontrava com aquele homem sujo e me atracava com ele. Ia para um canto. Colocava meu pau para fora… Olha o atentado ao pudor.

Minha irmã e a Camila ficavam apavoradas.

“Tú, esse homem tá todo sujo”, elas diziam.

“Mas ele é lindo”.

Elas: “Não é não. Toma vergonha nessa cara” >

Eu: “Eu gosto dele”. E chorava.

Vamos para a parte que interessa? No bar do Carlinhos, minha mãe falou que tinha pouco dinheiro. A bonita abriu a carteira e tirou uma onça. Chamou o garçom. Pediu a primeira. Depois a segunda. A terceira. Levantou-se, foi ao toalete. Voltou com um litrão. Pagaram para ela. Então, ela não pagou mais cerveja nenhuma.

Quem já saiu com a minha mãe, sabe que os bofes pagam tudo para ela. E ninguém tem mais de 30 anos. E foram vindo as cervejas. Uma hora, a mesa estava com três litrões de Itaipava. Eu bebi. Não deixei esquentar.

Bar com as mesas lotadas. Seresta comendo solto. Chegaram uns gaúchos. Loiros. De olhos claros. Sentaram-se à mesa da frente. O cara, Marcos, não tirava os olhos da minha mãe.

E os homens passavam, olhavam para minha mãe: “E aí, Maria, como é que você tá? Quer uma cerveja?” Mais litrão. E eu perdia a conta de quantas a gente tinha tomado. Nessa, um moreno, alto e magro do Monte Castelo sentou na nossa mesa. Pediu licença, primeiro. Pediu cerveja também. Adivinha o nome? Alejandro. Sério. Nome dele era Alejandro. Ficou bêbado! Saiu para ir ao banheiro e não voltou mais. Tadinho. Ficou se escorando na parede.

Nesse meio tempo, o gaúcho, o Marcos, tomou coragem e veio para nossa mesa com o amigo. Ele foi grosso. Queria levar minha mãe para cama. E esse tipo de cantada não funciona com mulher. Aí, ele levou um toco e vazou com o outro amigo do Sul. E o Alejandro? Uma bicha de carro super esperta raptou ele e vazaram. O final dessa história só Deus sabe.

Vieram mais. E mais cervejas. Trocamos de mesa. Bebi no balcão com o Fabinho Creuza. Troquei telefones com uma mulher de Paraíba. Dancei até com ela. Bebemos até acabar a seresta. Tomamos até uma garrafa de Bacardi do cara que levou a gente por bar do DJ Léo Jack.

Lá, só sei que a gente se sentou numa mesa. Eu e minha mãe. O motorista foi embora com uma mulher. Pedimos cerveja. Skol. E de repente uma briga na rua. Bando de homens caindo na pancada. Aí um monte de garotos saradíssimos com camisetas do UFC (vende na Em Cena, aqui no Shopping 3rios) separaram a briga. Tudo calmo. Paz na terra. Os bofes vieram para nossa mesa. Eu falei que eles eram saradíssimos?

Papo vem, papo vai. O moreno, que, aliás, era o mais bonito, abriu a boca para falar a frase mágica.

“A gente é lutador de jiu-jítsu”.

Jiu-jítsu? O quê? Não aguentei. Pedi outra cerveja. Não estava adiantando. Fui até o balcão.

“Me dá uma taça de vinho. Tinto. Suave”.

Depois pedi outra. Jiu-jítsu? O problema é que o álcool entra e a verdade sai. Jiu-jítsu? Ai, ai. Ainda bem que eu nunca fantasiei com um lutador. Nunca tive fantasias com esses homens sarados. Nunca!

Olha, eu tenho TV a cabo desde o século passado. Eu nunca i uma luta de MMA na TV. Nunca! Não sei quem é Carlos Newton. Aquele canadense maravilhoso que lutava de sunga branca. Ganhava todas as lutas. Nunca vi. Nem vi as cinco temporadas do reality Ultimate Figther Championship no canal FX. Passava aos sábados. Meio-dia. E aquele dunda sem um dente na frente que falava toda hora “adaga”? “Adaga”. Eu não via. E aquele outro negão com aquela cueca incrível na pesagem? Aliás, duas cuecas. Ele lutou duas vezes e perdeu as duas lutas. Eu não via. E o dunda da última temporada de sunga rosa que não saia da piscina? Eu não via. Nunca vi.

Passou também MMA na Redetv. Passou não Globo. Que terá uma versão brasileira do reality. Gente, eu não vejo essas coisas. Hoje em dia, passa MMA no canal Space. O nome do programa é Extreme Force. Semana passada tinha um dunda de short branco. Me disseram que tinha. Todo tatuado.

Olha, eu não conheço o Anderson Silva. Ai, ai. Ele luta e a mala fica gritando no short preto. Na pesagem, ele usa uma máscara branca. Ele fica tão bonitinho usando máscara. Nunca vi. E também não comprei… Não comprei a revista de O Globo de sete de outubro de 2007 com o lutador de vale-tudo Fábio Issa na capa. Luta é uma coisa que não me interessa. Não faz parte das minhas fantasias.

Ele disse: “A gente é lutador de jiu-jítsu”.

Jiu-jítsu? Fudeu! Eu fiquei mais feliz que pinto no lixo. Por que pinto fica feliz no lixo? Jiu-jítsu? Porra! Me baixou uma pomba gira dos infernos que eu pedi uma taça de vinho. Uma? Duas taças de vinho. E: “Eu adoraria que você me ensinasse alguns golpes” e quá, quá, quá, quá, quá.

Última cena que eu lembro: Minha mão maldita… Culpa da macumba que eu fui há cinco anos. Tá vendo o que gostar dessas coisas de negros? Minha mão maldita se lançando no corpo musculoso daquele moreno. Foi o golpe final.

Sinceramente: Nunca mais eu vou beber. Nunca mais. A gente se arrisca demais quando bebe. Eu vou procurar o AA. Vou conversar com o meu psicólogo, com o meu psiquiatra. Vou até numa igreja. Numa dessas igrejas que transformam gays em heterossexuais. Isso mesmo. Chega! Vou virar heterossexual. Vou namorar uma loira. Vou casar, vou trabalhar, ter filho. Vou ser feliz. E nunca mais vou colocar uma gota de álcool na boca e ficar agarrando lutador de jiu-jítsu.

Mas antes, eu vou ali tomar um açaí na academia onde treinam.

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