Matador de veadinho ou memórias póstumas dessa vida fudida

Aí uma amiga disse antes de pegar o ônibus que não querer acontece. Eu entendi: nunca fale eu não quero (eu tenho medo) que aparece.

Aí menina eu encontrei um dunda. Um dunda de Ralph Lauren. 47 anos. Muitas tatuagens, cristão, que me deu o maior abraço.

Tá lembrado de mim?

Camisa do personagem: Melhor se acabar de vodka que de tédio.

Era uma festa. Os dois estavam bêbados. Melhor escrever em primeira pessoa. Nós dois estávamos bêbados. Éramos dois festeiros. Ele vinha de uma e eu de outra. Eu não queria. Eu só coloquei essa camisinha no bolso por força do hábito e caprichei na cueca e no creme hidratante… Nem quero lembrar o nome do creme. Creme multiativo de beleza com filtro solar. Não queria.

Ele era bonito. Juventude é um termo novo e associado ao belo. Ele era jovem, refrescante. Tatuagem, camiseta, cabelo bem cortado. Vaidoso. Adulto.

As lojas teen que investiram num visual mais adulto para as molecadas cresceram em vendas 39%.

O volume na calça dele não era uma arma. Era uma caixa. Ele estava jogando com uns amigos. Jogo valendo dinheiro. Doses de cachaça e dinheiro. Eu estava numa festa. Só mulheres, Skol e um DJ tocando música brasileira. Festa do caralho para mulheres.

Ele me abraçou. Passou um carro. Os meninos do carro ameaçaram… Eu acho que eles xingaram a gente. Será que vão jogar bosta para ganharem ingressos para um baile na USP?

A gente se abraçou. Ele disse: Violência, fome, sensação de fracasso. Tudo isso passa. A pior coisa do mundo é o desespero.

Ele é um deus. Por que todos os deuses negros são de Ébano? Meu deus era mineiro. E era um deus da tatuagem. Um deus modificador de corpo.

A outra perguntou como é que eu escolho um tema.

A outra quem? Uma bicha?

Eu escolho por ousadia, eu respondi.

Casa de Deus. Eu na casa de Deus. Lá na casa do caralho.

Aí ele me agarrou por trás. Ele tinha uma arma. Eu sabia. Ele me enforcou. No rádio tocou: Hino da Repressão (2º turno), Chico Buarque.

Última coisa que eu escrevi: Eu sou um escritor que fode. Que goza, que se arrisca, que vive, que morre. Fechei os olhos e deixei que ele me enforcasse.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s