Yes, I am a Joke

Casa do meu menino azul e dentes perfeitos. Segunda. Noite. Skol litrão, bagulho e maço de cigarros.

-A questão não é quando, é onde. Quando eu apareci no sábado e você estava ocupado (lembrete: assistia Fabulous! The Story of Independent Queer Cinema), eu queria saber onde você comemoraria os cem anos registrados de luta das mulheres. Ele se justificava no linguajar dele olhando para mim. Quando você não quer me atender, penso logo que você está estudando. A imagem que tinha de você era de um estudante de arte, sei lá que trabalhava com edição de arte. Por causa do modo especial que você carrega seus livros.

-Eu adoro livros. Comentei.

-Eu sempre vejo você ou com livro na mão ou bebendo com gente mais velha.

-Adoro beber. Interrompi.

-Um dia eu te vi defendendo as causas homossexuais num bar fureca. Aí você falava: “Mas todos esses direitos foram conquistados com muita luta. Ninguém conquista nada sem lutar. Apanhando, batendo, vencendo, perdendo, afinal quem é o vencedor? Ainda não fizemos nada. Portanto, lutem”. E todo bar fazia silêncio para te ouvir.

Eu twittei “Quá, quá, quá, quá, quá. Era um Stand-up Comedy?”

-Lá naquele bar. Bar Sei-lá-quem. Você falou de um monte de personagens.

-Eu devia estar bêbado. O que é lamentável.

E ele: cá, cá, cá, cá, cá, cá.

Aí  foi minha vez: Quá, quá, quá, quá, quá. Você ri engraçado.

-Naquele dia, eu pensei “esse menino é um artista”. No fundo, o que interessa é a mágica. Lutar é fazer mágica. James Steweart interpreta um palhaço no filme do Cecil B. De Mille. Ele não é um palhaço, ele é médico.

Meu anjo cozinheiro da cor mais preciosa acendeu um cigarro. Ficamos em silêncio por meio minuto. Aí ele: O que não me incomoda não parece muito promissor. Entende? Você busca dentre de você aquilo que mais gosta. O que você é. Se você quiser ser um artista e você, minha vida, é um artista e gosta de ser artista… Ele parou para pensar. Talvez buscar uma palavra para concluir. Aproveitei para encher nossos copos. Ele bebeu e disparou com os olhos cheios de lágrimas: Eu quis ser cozinheiro porque minha mãe, por mais dolorosa que a vida fosse, sempre cozinhava cantando e sorrindo. Eu tinha nove anos. Eu queria isso para a minha vida. Eu queria sorrir e cantar.

Aí ele me deu uma olhada seguida do sorriso perfeito.

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