Qual é a parada?

Nunca quis ser jogador de futebol. Achava um saco as aulas de educação física. Sempre as mesmas peladas. Sempre a mesma bobagem. E depois falam que o sonho de todo menino é ser jogador de futebol. Nunca foi o meu sonho. Nunca quis ganhar um salário mínimo por mês. 51,3% dos atletas brasileiros ganham essa porcaria. Matava todas as aulas. Desafiava o professor: se você não vai ensinar como se joga, eu me recuso a fingir que você é professor de alguma coisa.

Eu estava vendendo aquelas bobagens que todo mundo vende em tempos de crise. Um real de lucro aqui, dois e cinqüenta ali. O aqué ia vindo. Conseguia pagar uma conta de luz, sempre atrasada, mas pagava, passar na merda do mercado e rezar para que uma promoção maluca salvasse minha vontade de almoçar e jantar. Hoje era quarta e tinha jogo e promoção de verduras.  Preparava uma sopa de inhame, com cenoura, com tomate… com a fome de uma vida inteira. Eu fui ficando deprimido. Desliguei o fogão. Eu preciso fumar um. Eu preciso escapar dessa realidade. Quem tem? Quem tem? Cartão, orelhão. Artur, o bagulho do Boré chega hoje. Se você quiser, passa aqui em casa que a gente vai lá.

Vocês querem saber por que eu fumo bagulho? A vida fica doce. E as bichas daqui da cidade, as bichas do meu círculo de amizade, todas fumam. Eu tomei um banho, meu cabelo está uma merda. Subi. Na casa da bicha uma confusão. Tinha festa de aniversário. A avó do Fael comemorava sei lá 80 anos. Quer refrigerante? Não. Quer cachorro-quente? Ou agora é cachorroquente? Não. Quer bolo? Não quero nada, veado. Quero fumar um. Ele mora ali. Falou onde o Boré morava. Eu não posso sair daqui agora. Fui. Ele não estava em casa. Desci. Encontrei com meu primo. Ele ia ao aniversário. Um oboró me chamou para fumar um. Porra, primo, eu disse. Quem tem um para vender? Fica firme. Olha ele ali. Era o Boré. Eu conhecia ele de algum lugar. Eles marcaram o local. Meu primo pegou a seda no bar e comprou fósforo e cigarro. Volta o caminho.

Eu falei que estava fazendo sopa de inhame.

Tem marafo no seu ilê?

A gente pode comprar no meio do caminho.

Você deixa eu chamar o oboró para fumar lá na sua casa?

Deixo. Deixo. Está na chuva é para se molhar. Fomos.

Minha casa humilde. Fácil de se ajeitar. Peguei gelo e copos. Vinho barato. Ele olhava para mim. Na minha paranoia, ele tinha a mesma sensação que eu: de onde eu conheço esse cara?

Fuma. Fuma… que black verminoso. Já estou chapadão. Não estava. Não estava nem um pouco… puta que o pariu, quando a gente fica nessas ondas é sinal que já subiu para a cabeça. Eu conheço o Boré da…

Boré disse: você se alembra de mim?

Eu ri fazendo que sim com a cabeça. Ele riu também. Silêncio. Eu disse: vocês estão com fome? fui pro fogão terminar com a sopa. Servi eles. Jantamos. Fumamos outro. Eu disse pro Boré que queria comprar um para eu fumar de manhã. Ele me vendeu um de cinco. Meu primo tinha ido ao banheiro. Você nunca mais me ligou, o Boré disse.

Eu achei que você não estava falando sério.

Se eu falei que era para você me ligar, era para você me ligar.

Eu não acredito em mais nada. Deixei a vida seguir.

O que você vai fazer mais tarde?

Fumar um. Terminar esse vinho, sei lá. As bichas combinaram de assistir o jogo na casa da Marcela.

E depois do jogo?

Não sei. Não sei de nada.

Posso passar aqui? Eu trago um bagulho do meu.

E nós descemos. E depois eu assisti ao jogo na casa da Marcela. Fiquei ainda mais chapado. Falei que ia embora. Casa. Minha casa. Esperei por ele. Ele não apareceu. Peguei no sono e dormi. E eu tive um sonho. Alguém disse: vamos supor que você adore sorvete. Você tem loucura por sorvete. Arruma um trabalho no verão de baixo de um sol quente. Trabalha para caramba. Trabalha mesmo. No final de semana você recebe seu aqué e dá de cara com uma sorveteira. Isso é o amor. Agora, o entrar na loja e tomar um sorvete de kiwi com calda de chocolate ou recuar, ai não sorvete engorda, já estamos falando de coragem. O amor te inspira, te excita, te acorda. E você vai.

Acordei com vontade de fumar outro. Acordei com vontade de ver o Boré. E de tomar sorvete. Apertei uma vela e antes de acender, bateram na janela do quarto.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s