O amor não será domesticado

mosdef

Se vocês estivessem lendo os classificados de um certo jornal trirriense hoje encontrariam esse anúncio: “Linda morena da Bahia, 19 anos, inteligente e bem humorada procura sua alma gêmea. Gosto de música, poesia, cinema e de sorrir. Quero um homem carinhoso para dividir meus sonhos e ideias”. Seguido do nome da anunciante e telefone de contato. Foram as amigas que incentivaram.

AMIGAS: Clara, coloca um anúncio no jornal.

Clara havia dito que precisava de um namorado.

CLARA: Acho que eu estou precisando de um namorado.

Clara nasceu na Bahia. Filha do meio de cinco irmãos. Um morreu no ano passado. Recebeu o nome de Clara por promessa da mãe religiosa. Querendo estudar e em busca de melhores oportunidades veio para a cidade maravilhosa aos 17. Não gostou. Achou a cidade feia e suja. Conheceu um caminhoneiro que a levou para outra cidade. Alugaram uma casa em Três Rios. Ele nunca estava em casa. Vivia viajando. Antes do natal, sofreu um acidente grave e morreu. Foi então que Clara descobriu que ele tinha outra família em Barra Mansa. Ficou sem nada. Para não voltar para Bahia ou para não ser despejada, trabalhava como doméstica. De oito às cinco. Limpava a casa, cozinhava, lavava a roupa, passava…

CLARA: Praticamente uma escrava.

Estudava na parte da noite. Tentava terminar o segundo grau.

CLARA: Ensino médio. Agora é ensino fundamental, ensino médio e ensino superior.

Ontem de ontem Clara acordou. Trabalhou, estudou. E depois das aulas encontrou com as amigas. Foram para um bar próximo ao colégio. Falavam de amor. Clara disse…

CLARA: Eu disse, e se o amor não for para mim? E se eu for uma pessoa que não merece o amor?

As amigas ficaram perplexas.

CLARA: Minhas amigas ficaram passadas.

Uma das amigas prontamente respondeu.

AMIGA1: Lógico que você merece o amor. Todo mundo merece ser amado.

No meio da discussão Clara disparou.

CLARA: Mas eu não encontro. Eu quero alguém. Eu vim da Bahia para achar alguém, mas eu não encontro.

Sugeriram os classificados do jornal.

AMIGA2: 22,50 o anúncio. E você ainda pode publica-lo online.

Isso, isso, isso. Boa ideia, responderam as amigas.

AMIGAS: Isso, isso, isso. Boa ideia.

AMIGA1: Ótima ideia.

AMIGA2: Excelente ideia.

Ligaram para o jornal de um celular.

ATENDENTE: Notícias da Vila, boa noite.

AMIGAS: Queríamos colocar um anúncio nos classificados do jornal.

ATENDENTE: 22,50. E vocês ainda ganham o online.

AMIGAS: Nós já sabemos. Como fazemos para pagar?

ATENDENTE: Cartão de crédito ou depósito em conta corrente. Ou pessoalmente no jornal.

E foram até a sede do jornal.

AMIGAS: Olá. Queríamos colocar um anúncio nos classificados do jornal.

 

Parte dois

 

Clara desceu para o trabalho e na portaria pegou os jornais. Subiu. Tomou um café antes de limpar a cozinha e deu de cara com seu anúncio publicado. Não sabia o que dizer.

CLARA (diz para o narrador): Sabia sim. Mas eu não acredito que elas fizeram isso comigo. Colocaram o número do meu telefone no jornal.

Levantou irritada.

CLARA (diz irritada): Eu não estava irritada.

Juntou os talheres para arrumar a cozinha.

CLARA (diz completamente irritada): Não aguento mais essa bagunça. Essa casa é muito bagunçada. Eles nunca aprendem. Eles não lavam um copo nessa casa. Depois reclamam com quem? Com a escrava aqui, ó. Ninguém me respeita nessa casa.

A patroa de Clara sempre dizia que a casa não ficava arrumada.

CLARA: Porque o marido dela chega para almoçar e depois fica a tarde inteira dormindo na sala com a televisão ligada. A filha dela chega do colégio e suja a casa toda. E a dona Neuza é uma preguiçosa que só sabe reclamar.

Dona Neuza sentia-se deprimida.

CLARA (num protesto): Deprimida nada! Mulher rica e entediada. Tem marido e está infeliz. Não está feliz, separa, né? Vai ficar vivendo de aparências? Não sabe viver sem marido? Arruma outro. Homem é igual biscoito. Você come um e tem fábricas e fábricas de homens. Homem tem em toda esquina. Olha a sujeira desse banheiro.

A pia do banheiro estava suja.

CLARA: A pia? A pia? O banheiro todo! Eu quero ir embora daqui.

Clara foi até a cozinha e preparou um chá de camomila. Sempre que se sentia triste, tomava chá.

CLARA: Eu não estou triste. Eu não estou triste. Não estou.

Clara chorou.

CLARA: Eu não aguento mais ficar sozinha. Não aguento mais.

Clara toda vez que chegava em casa, imaginava que alguém estaria esperando por ela.

CLARA: Eu fui num forró com minhas amigas um dia e tocou uma música linda.

A música era “Eu só quero um xodó”. Composta por Dominguinhos.

CLARA: Me deu vontade de chorar. Eu senti um vazio. Eu trabalho a semana inteira. Estudo a semana inteira. E para quê? Eu não sou bonita o suficiente? Eu não sou divertida o suficiente? Sou uma aberração? Eu sou um monstro?

Clara não era um monstro.

CLARA: Por isso é mais fácil pensar que não existe amor. Desejar amor é uma bobagem. Desejar…

Telefone tocou. Tocou.

CLARA: Vou atender ao telefone. Deve ser a chata.

A chata era a Dona Neuza.

CLARA: Alô?

AMIGA1 (depois de um grito): Você já abriu o jornal de hoje?

Clara não respondeu

AMIGA1: Está ficando famosa, hein? Vai chover homem na sua horta. Melhor você levar um guarda-chuva.

CLARA: Palhaça.

AMIGA1: Vamos sair hoje?

CLARA: Não estou a fim de sair hoje não.

AMIGA1 (suspira): Mas hoje é a Monique que vai tocar no Forró do Chiquinho. Vamos? Ai, Clara… Para de bobeira. Vamos?

CLARA: Eu tenho que estudar.

AMIGA1: Tem nada. Hoje é sábado. Quando eu sair do trabalho eu passo aí para te buscar.

Desligou o telefone.

 

Parte três

Por insistência das amigas, Clara se arrumou. Usou o mesmo vestido de festa que ganhou de natal. Um colar pequeno e também um pequeno relógio. Marcou de encontra-las no bar que ficava em frente. Pediu um vinho. Esperou. Percebeu um olhar masculino. Abaixou de leve a cabeça e retribuiu o olhar. As amigas chegaram juntas. Tomaram duas cervejas e entraram para o forró.

Clara dançava solitária quando sentiu que estava sendo observada. Era o mesmo rapaz. Ele se aproximou e disse um oi. Clara respondeu com um olá. Perguntou o nome dela.

CLARA: Meu nome é Clara.

CHICO: Prazer. Francisco.

CLARA: Francisco por causa do santo?

Ele disse que não. Falou que era porque a mãe gostava muito de música. Porém, a mãe era fanática por novelas. Depois perguntou se o nome de Clara era por causa da santa.

CLARA: Não. Minha mãe era uma sambista arretada.

Eles riram. E se olharam. Chico perguntou se Clara queria beber alguma coisa.

CLARA: Um vinho seria bom.

E se sentaram numa mesa afastada. Clara depois quis dançar. Ele dançou com ela. Tocou a música que ela tanto gostava. E formaram os dançarinos mais abençoados do mundo. E nunca mais pararam de dançar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s