Décimo terceiro em tempos de crise

Perai cara. Deixa eu contar como foi a história. Está com pressa de que? Tem, sim, muito tempo que a gente não se vê. Para mim foi uma eternidade. Lógico que eu senti saudades.

(eles dão um grande beijo. O beijo é imaginário).

Há um narrador observando a cena de fora.

Narrador diz: vai começar…

Eu estava na casa daquela amiga Bunduda. A que você não quis levar para sua casa, esqueceu? Você falou para mim que queria ficar só comigo. Mas eu estava com a Bunduda e não ia abandoná-la. Ela tem medo de ir para casa sozinha. Eu não tiro a razão dela. O mundo é muito cruel com travestis masculinos. E ela estava mais assustada porque gufaram duas amigas dela que estavam no hospital por causa do doce. Uma morreu as oito e a outra às duas da manhã de forma misteriosa. Para ela tudo era filme de terror. Sabe quando você entrou na quebrada e eu te disse: realmente, filme de terror? E nem estava te vendo naquela escuridão. Não tem nada a ver de você ser preto.

Narrador (aparece sempre em preto e branco): do jeito que ele gosta: muito preto.

Eu te vi porque você assobiou. E olha onde você estava quase do outro lado. Eu deixei a bicha esperando um tempão. Mas depois que eu te achei, não resisti e voei na sua…

Narrador: olha o linguajar! Olha o linguajar!

A escuridão da metade da cena (ou do palco) representa o segundo personagem. O protagonista está no palco sozinho. É uma paródia da solidão. Como se ele falasse sozinho e lembrasse de tudo ou inventasse uma história.

Aí você disse… E aquilo foi mágico. Não vou ficar com você nesse lugar. Quero te levar para casa. Eu fico mais a vontade com você no meu quarto. O que você disse valeu por seis meses de terapia.

Narrador: o negão perguntou “o que você falou de mim para ela”.

Eu disse que você era uma delicia.

Narrador: ah! Não sou não. Não sou não, disse o negão.

Corpo maravilhoso.

Narrador: ele só gosta de negão. Nunca se viu parecido. Podia tombar um caminhão de Paulo Zulu. Se o motorista fosse negro, ele ia socorrer só o motorista.

Eu não sabia que você estava fora do Brasil.

Narrador: agora o cenário muda radicalmente. O protagonista está deitado numa cama sem camisa. Fuma um cigarro. Amanheceu.

Ultima vez que eu te vi foi no carnaval. E a gente não ficou naquele dia.

Narrador: ele faz que não com a cabeça várias vezes como que se desculpasse.

Você me viu fantasiado. Eu te cumprimentei, mas você estava trabalhando e a minha escola entraria depois que a sua.

Narrador: você lembra quando a gente ficou?

(narrador é o mesmo personagem)

Protagonista está deitado. Fuma e joga a fumaça para cima.

Não é fácil esquecer uma pessoa tão bonita.

A cena muda. Estrada. Protagonista ao lado de uma grande bunda com pernas longas e saltos altos. Pode ser um desenho animado ou uma fantasia.

Bunduda: estamos andando a toa. E não paramos der dar voltas.

Problema algum. Caminhar é excelente para o coração. Melhora a respiração. Oxigena melhor o cérebro. É bom para a memória. Exercita a barriga e se você quiser uma informação completa perde-se 300 calorias por hora. Quer dizer, emagrece.

Narrador: o que o autor desse texto fragmentado quer com essa passagem? Uma hora ele está no escuro noutra na cama. Depois conversa com uma bunda enorme. O que o cu tem a ver com as calças?

Protagonista diz ao narrador: você pode falar cu e eu não posso falar mala.

Narrador: mas você é um escritor vulgar.

Nós somos as mesmas pessoas. Viemos da mesma porra. Saímos do mesmo buraco.

Narrador: viu? Você só fala sacanagem. Tudo para você é sexo. Você quer sempre falar de suas trepadas. O que você quer com isso, um prêmio? Fala para eles…

Falar o que?

Narrador: do seu décimo terceiro.

Que décimo terceiro?

Narrador: gente, essa bicha leu sei lá onde que a média de parceiros sexuais entre os heteros é de 12,3 durante a vida. Esse ano ela já passou do décimo terceiro. Treze, só esse ano!

Protagonista (pensativo) eu fiquei com ele domingo passado. Não! Já era segunda de manhã.

Narrador: agora vocês ficarão chocados. A bicha só conta os caras que ela deu uma mega gozada.

Protagonista: e daí. Quer ficar comigo? Vou ficar, ué. O décimo terceiro tinha sumido porque estava em turnê pela Europa. Ele encontrou comigo e fomos para minha casa. Levei ele para o meu quarto, conversamos até de manhã e matamos a saudade.

Narrador: e você vai ficar levando qualquer negão pra sua casa?

Ele não é qualquer um, não. Ele é um percussionista que eu admiro muito. E eu estava enfeitiçado com aquele papo europeu.

Narrador: estava enfeitiçado pela cor dele.

Vai tomar no cu!

Narrador: vulgar!

Mal comido.

 Narrador: chega! Não quero mais ser insultado desse jeito. Para mim, acabou.

Narrador some.

Protagonista olha para a plateia. Vou recitar uma poesia.

(cortina fecha)

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