A memória é uma ilha de Edson

Outubro passado, produzia uma festa africana e cai de cabeça numa pilastra quando ajudava com os ornamentos. Hospital. Medicamentos. Casa. Medicamentos.

Eu sempre fui uma pessoa isolada. Gostava sempre de ficar trancado no meu quarto ou numa biblioteca ou numa sala de cinema ou numa festa. Eu sempre fui sozinho. Dessa vez, eu estava acompanhado de remédios tarja preta, cachaça barata e televisão.

Às vezes eu saia de casa. Para buscar cachaça, para buscar conforto no outro, para buscar ajuda. E às vezes eu me esquecia… eu não lembrava onde morava. Eu não sabia quem eu era. Talvez, eu nunca soube quem eu realmente era.

Me afastei do trabalho. Eu me afastei porque eu não sabia mais como trabalhar. Eu esquecia aos poucos o nome das pessoas, o telefone dos outros. Meu telefone tocava. Quem era? Alô? Queria falar com o Artur? Quem é Artur? Não tem nenhum Artur aqui, não.

Passou o natal, passou janeiro, o carnaval. Eu gostava de carnaval? Eu não me lembro. E num sábado de março, dizem que foi assim que aconteceu, eu briguei com as pessoas na rua. Dizem que eu dizia: eu quero ir para casa. Eu não moro aqui.

Me internaram numa clinica. Mais medicamentos. Muita falação na minha cabeça. Todo dia alguém me visitava. Diziam que se importavam. Diziam que gostavam de mim. Eu acredito que as frequentes visitas eram motivadas pelo tédio delas e não tinha nada a ver com o fato dessas pessoas gostarem ou não de mim.

Passou um mês. E eu ainda na clinica. E eu ainda na mesma. Sem memória. Sem progresso. Na Idade Média, criminosos e loucos eram trancados numa mesma prisão. Hoje também. Viciados podem ser criminosos, mas se a família intervir esses mesmos viciados são internados em clinicas de reabilitação. Uma penitenciaria de luxo. Como era essa que eu estava. A maioria dos internos era viciada em alguma coisa. Eu, talvez, fosse um viciado em esquecer. Ou eu me poupava de pensar nas bobagens da vida. Nas pessoas que não me interessavam. Era uma grande vantagem. Alguém me visitava. Um chato. E eu: desculpa, não me lembro de você. Fazia um drama. Gente medíocre adora drama.

Nesse mês conheci umas figuras. Quase todos mais velhos que eu. Aposentados que escolheram uma clinica psiquiatra ao invés de asilo. E tinha um garoto. Que apanhava do pai alcoólatra. Eu era alcoólatra? Escrevia poesia. Poesias horrorosas. Eu gostava de poesia? Magro, alto, triste. Ele era muito escuro. A pele dele tinha um brilho especial. Lindo. Muito negro. Memória. Eu gostava de poesia? Era viciado em crack e cocaína. Eu gostava de cocaína? Não me lembro de que eu gostava. O que eu realmente gostava. Adorava. Amava.

Na sexta-feira santa, fui para casa. Passar a páscoa com a família. Fizeram uma festa. Um churrasco com muita carne e cerveja. Os entediados todos. Meus tios, primos, supostos amigos… Quem era essa gente? Quem era essa gente? E por que estão tocando essas músicas horrorosas?

Fui para o meu quarto. Parece um quarto de alguém interessante. Ou de alguém que me interessaria. Livros, música, revistas. Fotos na parede. E filipetas de festas. Eu trabalhava com festa. Era produtor cultural. Teatro, cinema, moda. Arte. Minha vida tinha arte e eu esqueci. Esqueci de tudo. Esqueci de mim. Por quê? Por quê? Eu não estava feliz? Eu não era feliz? Pílulas. Cama. Manhã de segunda. Clinica.

Psiquiatra chegou. Foi conversar comigo. Queria saber se eu tive progresso. Não sei. Algo me diz que não há progresso. Mas eu devo seguir. Ter novas memórias. Sair daqui. Ir para outro lugar. Começar de novo. Ser outro.

(…)

Quarta-feira, eu não tomei os remédios. Fingi toma-los e guardei no bolso. Me deitei. Na madrugada, coloquei meus tênis, um casaco. Silêncio. Os enfermeiros dormindo, o vigia também. Pulei o muro e segui pela rua da gráfica. E cai no bairro Monte Castelo em direção a Levy Gasparian. Caminhei. Andei até não poder mais. Andei sem saber para onde ir. Eu queria me perder. E esquecer de tudo.

 

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Um comentário sobre “A memória é uma ilha de Edson”

  1. Eu esqueço pra caralho também: por causa do signo aquário? sou desligado com o mundo? maconha? depressão? falta de sexo? ou muito café? falta de peixe? falta de leitura constante? por que esqueço tanto?
    hahahahahahahahaahaha
    Quanta bobagem.
    Sobre os dramas das pessoas…não sei…há dramas que impulsionam obras de arte e sonhos. O que dizer sobre a obra musical do Cazuza? Drama faz parte do “reality-show” das pessoas.
    Se eu não fosse dramático, talvez nunca tivesse ido pra São Paulo sem um puto no bolso!
    Assim como nem todo comediante me diverte. Tem gente que não sabe contar uma boa piada, mas talvez possa preparar meu prato favorito. Será que mesmo assim as pessoas não se tornem especiais? Aí já não existe mais drama e nem precisemos crucificar as pessoas com atestado de “medíocres”.
    O amor é sempre um mistério – minha infinda consideração sobre os textos da Lispector.
    Às vezes é preciso, sim. Rasgar este coração que só sabe o que são as pedradas. Coração bom, mas cheio de folhas secas. Rejuvenesça-o!
    Sobre dizer que se gosta de alguém…acho que é sempre bom ser claro, transparente, ou fajuto, cafona, imbecil…já cansei de dizer que amo tanto mil pessoas, bem como eu odeio ou não sinto nada, posso ser niilista ou romântico quando transpiro arte.
    Adoro também a falsidade, sujeira, mentira, um bar “pé sujo” da Renata na rua da feira da vila isabel…adooooooro perigo! Admiro quem mente bem, nem tanto quem só diz verdade, tem gente que é feliz porque trabalha, tem dinheiro e tem filhos.
    Gosto de gente que nunca dá certo, é neurótico, mas sabe dividir o tempo, o espaço, a calma, o único pedaço de pão da mesa, as roupas rotas e o amor vagabundo.
    Verdade o caralho! Diga isso na cara do psiquiatra. Atirem no pianista!
    Estes seus textos sobre a memória, o esquecimento, a esquizofrenia estão bem divertidos. Fazem lembrar de…ops! Esqueci.

    bjs

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