Trem das Onze

A galera combinou de ir ao cinema. Galera? Nossa, estou me sentindo um adolescente.  Última sessão de terça-feira. Uma chuva do caralho! Fui. Esperei por eles. Eu, capricorniano, cheguei quinze minutos antes. O filme começou. Depois, eles chegaram. Reclamaram da chuva. A gente arruma sempre uma desculpa pelos atrasos. Uma desculpa ruim. Ninguém diz: estava dando o meu corpo para cinco negões.  A culpa é do transito, da violência, da chuva. Não queria entrar. O filme já tinha começado e eu concordo com o Woody Allen em Annie Hall. Eu também gosto de ver o filme por inteiro. Mesmo aquela porcaria em cartaz.  Preciso falar o nome do filme?

O que a gente vai fazer?

Tomar cerveja.

Galera no bar. Bar ruim. Sem música. Garçons mal humorados. Papo chato. Mudamos de bar. Bar com maquininha de música.

Estava tocando Justin “lovestoned”. Entramos, alguns dançavam. Garçonete feliz. Papo idem.

Férias, chuva, Santa Catarina. Bush, sapato, guerra, política, Lula. Sexo, excitação, álcool, maconha, morro da Mangueira.

Mais álcool. Tomamos conhaque, vodka, menta com canelinha.

Ficaram bêbados. Eu não. Foram para um lado. Todos moravam em bairros opostos ao meu. Fui para o outro lado em companhia de um único menino morador da Vila Isabel

E aí Artur, está a fim de fumar um?

Está perguntando se banana quer macaco? Você tem ai?

Não. Mas sei onde tem.

Essa hora?

É um parceiro meu. Ele me adianta quando eu preciso.

Fomos até o local. Ele pediu para eu carregar a mochila dele e encontra-lo numa rua X.

Fui. Três Rios, eu já disse, é um labirinto. No caminho, vi uma molecada de 12 ou 13 anos na porta de uma… Loja? Ou garagem? Eles bebiam e cheiravam cola. 12 e 13 anos no máximo. Estava bêbado passei por eles. E perto deles, eu de um lado da rua eles do outro, percebi que estavam roubando uma mercearia. Eles me olharam, eu bêbado cumprimentei. Disse algo como “falou”. E continuei meu caminho até o baseado.

Me seguiram. A molecada viu a mochila e foram atrás de mim. Podia ser mentira, né? Quem dera. Podia tanto ter sido um sonho.

Molecada veio querendo a mochila. Crianças tentando me assaltar. Tirei a mochila e cai na porrada. A mochila era pesada, bati neles com a mochila. E foi então que um desses golpes fez cair o boné de uma dessas crianças.

Era uma menina. Dois segundos para pensar. E perceber que eu estava batendo em crianças. E vinha mais para caírem na porrada. Dei um último golpe e me afastei. O garoto descia com a maconha, olhei para ele e corri para uma linha de trem.

Era um muro, uma ponte, sei lá. Uma queda. Pulei. Transformei-me num atleta de parkour. Como eu não me machuquei, pergunte a um físico. E corri pela linha de trem. Estava escuro, madeira molhada. Corri. E me escondi numa quebrada. Uma quebrada que já me serviu para umas metidinhas com garotos da cor do céu à noite.

Esperei. Esperei, respirei. Assustador.

Um tempo depois alguém passou pela linha. Ligou a lanterna do celular procurando alguma coisa. Eu acredito em noticia boa. E foi.

 

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