Não esqueça a minha Caloi

 

caloiEu sempre adorei bicicletas. Hoje está na moda, mas eu gosto de bicicleta desde pequeno. Ganhei meu primeiro campeonato de BMX aos seis anos de idade. Meu pai me deu uma bola de futebol. Eu não queria jogar futebol. Eu queria desafiá-lo.  Andava com a bicicleta da minha irmã. Rosa. Andava com a bicicleta rosa para baixo e para cima. Ele deve ter ficado envergonhado e comprou uma Caloi para mim. Azul. Porque azul era cor de menino. Eu adorava aquela bicicleta. Só andava com ela quando meu pai estava no trabalho. Quando estava em casa, no domingo, por exemplo, era com a rosa que eu me acabava.

Margarete Mendes, mãe: a primeira palavra que o meu filho disse foi negão. Tinha um vizinho amigo nosso que o Artuzinho era apaixonado.

A primeira palavra que eu disse foi negão, mas eu queria ter dito mengão. Meu pai era um botafoguense fanático. Achava que quem não torcia pelo Botafogo era veado. Eu não tirava a minha blusa do Zico.  Eu gostava do Zico. Principalmente porque ele tem o mesmo nome que eu. Ganhei um apelido de neguim, até. E por coincidência, eu me formei em estudos africanos. Depois meu mestrado em rituais tribais e suicídio. E mais tarde meu doutorado. Sou especialista em cultura africana, racismo e políticas discriminatórias. Professor universitário e autor dos livros “Moda Masculina, Violência e Poder”, “O Consumidor Negro e o Mercado Consumidor” e o meu livro de maior sucesso. O livro que me deu fama e algum dinheiro “Pau de Nego, Pó de Branco”. O livro que começou toda aquela confusão.

Margarete Mendes, mãe: eu acho que o meu filho é homossexual. Eu sempre soube. Mas ele não queria falar da vida pessoal dele.

Trevissan escreveu um artigo dizendo que todo escritor que ousa escrever sobre erotismo masculino é acusado de ser homossexual. Uma jornalista da revista Veja que nem leu meu livro, disse que eu era um escritor homossexual. E como mais gente lê a Veja que a G, virei o escritor homossexual. O escritor tarado por negão e cocaína.

Margarete: ele nunca se assumiu. Meu filho cheirou muita cocaína nessa época.

Augusto Kalil, psicanalista: O livro “Pau de Nego, Pó de Branco” é sem duvida a melhor obra de Artur Mendes. Fala dos mecanismos que usamos para mascarar nossos desejos. Nesse caso, ele usa a cocaína, o uso abusivo de cocaína para denunciar nossas repressões sexuais. (depois de uma pausa) Mas, Artur Mendes é um escritor homossexual. Em “Moda Masculina, Violência e Poder”, ele dedica um capítulo inteiro para falar de cores consideradas masculinas e femininas. Mas a gente percebe que ele fala da infância dele. Da tal bicicleta rosa que ele usava para fugir do autoritarismo do pai.

Antes de escrever “Moda Masculina, Violência e Poder”, eu tinha ido ao Quênia conhecer umas tribos. Eu aproveitei para registrar minha viagem e produzi uma série de documentários que passou no NatGeo sem nenhum sucesso de público. Mas depois daquele bafafá todo em relação a minha sexualidade, reprisaram os programas e todo mundo viu. Todo mundo queria ver o que eu gostava.  E eu saia nas revistas, ganhava prêmios. Recebia convites para palestrar. Todos os canais queriam me entrevistar. Só fui ao Roda Viva. Porque era de um canal sério. Eu achava que era um canal sério. Passei quase duas horas falando do meu trabalho, dos meus estudos. Não falei nada da minha vida sexual.

Margarete: não sei se meu filho tinha vida sexual. Ele só trabalhava.

Naquele tempo, eu fui para Londres.

Margarete: ele foi para Londres para fugir. Ele era um pouco medroso.

Estudei design. Estava apaixonado por moda, tendências de moda. Futuro. Lá eu acabei me interessando por luta livre. Fui pro Senegal e montei um concurso. Um campeonato de Wrestling. Foi um sucesso na Internet e depois se espalhou no Pay-Per-View. Virou Reality Show. Depois daquilo eu virei um guru do marketing. Uma espécie de mágico da crise. Eu era exemplo do vencedor. Do profissional de sucesso.

Margarete Mendes, mãe: uma confusão a vida dele. E tanto sucesso para que? Meu filho era obcecado com trabalho, com a carreira, com os estudos. Não tem tempo para namorar. Não quer ter tempo para namorar. Meu filho só pensa no trabalho. A vida dele é trabalho.

Augusto Kalil: se você pensar bem “Vasco, Botafogo, América e Bangu, quem não for Flamengo”… Quer dizer que quem não for Flamengo é homossexual. É mulherzinha. Quem não for flamenguista é impotente, um eunuco. Quem não gosta de futebol é gay.

Margarete: meu filho nem sabia o nome dos times de futebol. Se meu marido dissesse que gostava de churrasco, o Artuzinho dizia que era vegetariano.

Repórter: você acha que seu filho é feliz?

Margarete: meu filho não tem tempo para a felicidade.

Pedestre na rua: eu adoro aquele livro sobre sexualidade e uso de drogas. Ele fala de tortura desde a escravidão e os processos de repressão sexual nesses quinhentos e poucos anos de Brasil aportuguesado. Eu realmente adoro. Artur Mendes escreve muito bem. Deve ser uma pessoa muito divertida.

Eu sou um chato. Eu me acho um chato. Minha vida é chata, eu só ganho prêmios. Sinto saudades de andar de bicicleta.

Margarete: ele nunca gostou de andar de bicicleta. Ele gostava da bicicleta rosa porque o pai dele detestava. Ele ganhou o campeonato com a bicicleta rosa. Naquele tempo meu filho era muito mais feliz. Hoje ele perdeu a mágica. Depois que meu marido se foi, ele perdeu a mágica.

Repórter: Você se considera feliz?

Não sei responder isso. Não sei. Não tenho tempo para pensar nesses rótulos.

Margarete: meu filho precisa de uma nova bicicleta. Uma bicicleta que faça ele lembrar da infância. Que faça ele sorrir. Meu filho podia ter sorrido mais.

Eu me diverti muito nessa vida

Margarete: meu filho nunca se divertia.

Eu tenho sucesso, eu tenho dinheiro. Uma carreira sólida e respeitada.

Margarete: ele nunca teve um amor.

Eu estou satisfeito com a minha vida. Eu não preciso de mais nada.

Margarete: esquece a bicicleta. Meu filho precisa de um negão.

 

Anúncios

Um comentário sobre “Não esqueça a minha Caloi”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s