A Vida Só Se Dá Para Que Esse Dedo

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Convidaram-me para uma festa. Estava indo a uma lanhouse. Encontrei um amigo. Aparece lá em casa depois para gente tomar vodka. Hoje é aniversário de XXX. Dessa vez, eu não revelarei o nome das pessoas. Aguardem. Aguardem.

Fiz o que tinha que fazer. Sete e meia marquei com… Nome fictício… Um nome bem fácil… Deixe-me ver… David Lynch. Essa semana, eu estou ajudando ele com uma revisão para o seu primeiro vestibular. Segunda-feira, uma aula de matemática, biologia. Terça, aula-revisão de física. Ele não apareceu. Ontem, presente para ele se motivar: gravata Pierre Cardin e foto da Torre Eiffel. David Lynch é fascinado pela França. Prestará turismo na federal de JF. Hoje revisamos história. Falei de política. E geografia. Filosofia também. Não cai filosofia no vestibular. Queria que ele pensasse. Antes de fazer prova é bom pensar.

Depois de uma aula babadeira, nós fomos caminhar. Encontramos com esse amigo. Nome fictício… Um nome bem fácil… Gregg Araki. Ele estava acompanhado de… Nome fictício… Um nome bem fácil… Sofia Copolla. Iam para a festa.

Gregg: Aparece lá. A gente vai buscar um babadinho.

Tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac…

Imagem do relógio. Ponteiros acelerados. Idéia de passagem rápida do tempo. Música de festa. Leitor/leitora qual é a sua música de festa? Aquela música que, mesmo num velório, você não resiste e dança? A minha é “Out of Control” dos Chemical Brothres.

Porta da casa se abre. Gente dançando na sala. Eu e David caminhando pela festa. Em três, dois, um, estaremos bebendo cerveja. Out of Control”.

Brindamos. Bebe, bebe.

Quem é o aniversariante?

David Lynch: Quenda! Gregg Araki e a outra estão bebendo lá no quintal.

Balançadas de mãos no alto. Largos sorrisos. Desfile até a mesa. Gisa, Gisa, Gisa. Quintal.

Nhaí, mulé?

Gregg: Nhaí, mulé?

Qual é, piranha?

Sofia: Qual é, piranha?

Babado, né?

Gregg: Babado.

Sofia: Babado. Está a fim de fumar um?

Quá, quá, quá, quá, quá, quá, quá, quá. Lógico!

(…)

Quem é o aniversariante?

Greeg: Olha ele ali de boina vermelha sem camisa. Foco no meu rosto virando para saber quem era. Expressão de uau.

fiquei com ele, eu disse.

O aniversariante era o meu negão. Quem lê meu blog sabe quem é. Nome fictício… Um nome bem difícil… Spike Lee. Vou ou não vou lá nele desejar feliz um feliz aniversário?

Gregg: Vai lá, bonita. Você é modelo. Ferve.

Cinco, seis, sete, oito. Desfilo para felicita-lo. Ele me vê, se levanta, sorri. Negros tem sorrisos de ouro. Leitor/leitora já percebeu que eu adoro falar de sorrisos? Ele abriu um sorriso melhor que o meu uau.

Spike Lee: você veio.

Feliz ano novo.

Eu o abracei. Um longo abraço. Otempodianosuniagora. Mágico de Oz? Mágico de Oz? Sou um leão sem coragem. Uma máquina sem cérebro. Uma menina sem lar. Mas sou um espantalho de coração gigantesco e vazio. Dá-me cinco minutos. Da-me mais tempo para esse abraço.

Música que estava tocando: “I dont Know Why”.

Depois do abraço, Spike Lee gritando: serve uma cerveja pro cara, aê. Agora falando baixo só para mim: eu fiz pau nas coxas. Você toma?

Copo de pau nas coxas na mão. Na minha mão. Pau nas coxas na minha boca. Bebida dentro do meu corpo.

Não bebo não. Sou evangélica.

Spike: senta aê com a gente.

Não. Eu estou na mesa ali (apontando para a mesa) com as bichas. Depois eu volto.

Spike: vou te esperar.

Ok.

Olhares de amantes. Olhares diamantes.Olhares de hoje vai ser precioso.

Mesa.

Sofia: eu estou louca para fumar. Sou praticamente uma chaminé. Vamos para uma quebrada?

Quebrada. Muitas árvores. Muitas. Muita manga.

Gregg Araki apertando. David Lynch com a garrafa de cerveja enchendo nossos copos e falando do vestibular de Juiz de Fora. Suas expectativas para o sábado e domingo. Suas chances de passar.

David: Minha roupa é linda. Acho que eu vou de cachecol. Espero que chova.

Sofia, para mim: ele é bonitinho, Artur. Ele é um filezinho. Vai pegar?

Eu abri minha carteira de mão. Mostrei a ela 15 camisinhas. Renovei meu estoque essa semana. Você sabe qual foi minha resposta? Errou.

Disse: me respeite. Sou uma leitora de Marie Claire.

Gregg pilou, acendeu, fumou, tragou, soltou. Fumou, tragou, soltou. Fumou, tragou, soltou. Passou a bola.

Gregg: rola na de um.

Sofia fumou, tragou, soltou. Passou a bola.

Eu fumei, traguei, soltei. Passei a bola.

David fumou, tragou, soltou. Passou a bola.

Gregg fumou, tragou, soltou. Passou a bola.

Repetiu essa seqüência até a exaustão do bagulho.

Festa. Rodadas de marafo brabo e cervejas na nossa mesa. O garçom nos servia toda hora. E toda vez que ele abria uma cerveja, Spike olhava para mim. Entendi a mensagem, meu querido. Eu fiz cinema também. Fui até jurado de um festival estudantil.

Cinco, seis, sete, oito. Remix de “In to the groove” da Madonna. As bichas na pista de dança. Sofia não quis dançar. Sofia Copolla não é veado. Pinta, muita pinta. O aniversariante do meu lado. Dançando. Repetiu “I dont Know Why”.

(letra da música)

Depois uma seqüência de música joga o muco. Quando tocou “Ibiza” dos Desaparecidos, eu disse para o David Lynch: essa música não é a versão 2008 de “Destination Calábria?”.

Ele pensou. Quá, quá, quá, quá, quá, quá, quá, quá.

O garçom servia a gente até na pista de dança. Spike sussurrou algo no ouvido dele. Uns minutos depois, ele voltou com um copo de caipirinha. A pior caipirinha que eu já tomei na minha vida.

A próxima eu faço. Eu disse.

Spike: tudo bem.

Trouxeram o bolo para cantarmos parabéns. Isso quer dizer que a festa está acabando?

Spike: ainda tem um freezer lotado de cerveja.

Não estava.

“Parabéns pra você…” “Derrama, Senhor, derrama sobre ele seu amor”.

Eu gritei: pro Spike tudo ou nada?

Todos: tudo!

Então como é que é?

Ameaçaram cantar “com quem será”. Foi uma mulher. Mulheres são taradas por casamento. Spike olhou para mim. Ameaçaram cantar “com quem será”. Eu fiz com os ombros um sinal de foda-se. Ameaçaram cantar “com quem será”. Spike apagou as velas. Dois e sete. Dj tocou uma seqüência de funk.  Brasileiro tem memória curta, está ligado? Foram todos dançar.

(…)

Na mesa eu pedi ao garçom para preparar uma caipirinha. Ele me levou até a cozinha. Mostrou onde ficavam os utensílios. Deu-me pinga, limões, açúcar. Esqueceu do gelo. Saiu para servir outras pessoas. E quem aparece na cozinha para tirar minha concentração?

Spike: fazendo o que de bom para nós?

Caipirinha. Mas não tem gelo.

Spike: peraí. Vou pegar.

Preparei duas em segundos. Tim, Tim.

Spike: você já conhecia a casa?

Não. Sua casa é linda.

Spike: a casa é alugada. Meus parceiros alugaram para mim. A dona daqui é maneira. Aluga a casa para eventos. Você já viu o segundo andar?

Subimos. Entramos num quarto. Sentei num sofá. Era um sofá muito comprido. Bege. Na verdade era um divã. Quarto maravilhoso. Iluminado por abajur. Spike deitou-se no meu colo. Meu pau duro querendo fugir da calça. Ele percebeu e fingiu que estava deitado num travesseiro. Um travesseiro com um animal incontrolável, maluco dentro. Silêncio. Eu fazendo cafuné nele. Adoro agradar meus amores. Ele olhou para mim. Olhar doce.

Spike: o que você está aprontando?

Estou juntando dinheiro para ir embora.

Spike: você vai para onde?

Vou estudar. Vou para São Paulo estudar.

Spike: você está feliz?

Lógico. É tudo que eu sempre quis. Eu sempre quis ir embora. “O paraíso é o lugar que eu estou”, mas eu não gosto de morar aqui. Eu não gosto muito daqui.

Spike: você não gosta de nada em Três Rios?

Não! Gosto de muita coisa. Gosto de tomar banho no Paraíba, gosto de beber no calçadão, gosto da biblioteca do SESC… Gosto de você. Eu gosto muito de você.

Corta a cena. Festa rolando. Talvez Gregg Araki e David Lynch dançando. Sofia sentada, talvez. Uma confusão se instalou. O DJ cancelou a seqüência de funk. Descemos com o novo barulho.

Uma briga arrepiante entre meninos. David Lynch assustado. Bêbado e assustado tentando entender a cena. Os três se juntaram e vieram até onde estávamos.

Sofia: gente, o que está acontecendo? Tanta bebida. Um monte de mulher.

Do nada, um idiota mal vestido saca uma pistola e atira para o alto. Correria. Pânico. Eu fiz o que eu deveria fazer, puxei o Spike pelas mãos e com o outro braço, que se transformou num laço, eu puxei Sofia, David e Gregg. Levei os quatro para cozinha. Eu vi onde ficava a porta dos fundos quando preparava as caipirinhas. Os outros convidados espremidos tentavam sair pela porta da sala. Imagine o caos. Subimos um morro que dava para uma outra rua. Um morro que nos levaria para outro destino. Três Rios para quem não conhece é um labirinto. No caminho, ouvimos outros tiros e gente gritando. Desesperadas. David tremia e chorava.

Sofia: corre, corre, corre gente. Corre, caralho!

Na minha infância, eu que sempre fui Loser, que sempre sofri com o bullying, li muitos livros de realismo fantástico. Nada me assustava. Os mesmos livros, as mesmas histórias. A mesma ficção.

Paramos em lugar nenhum. Todos falando ao mesmo tempo. Tirei da carteira um maço de cigarros. Acendi. Passei para Sofia.

Sofia: muito (respirou) obrigada. Artur, você é um anjo.

Cigarro para todos. Spike se afastou um pouco e sentou numa pedra. Muitas árvores em volta. Muitas mangueiras.

Sofia: foda, cara. Porra. Foda, cara. Gregg, pelo amor de Deus, veado aperta essa porra aí. Vamos fumar um baseado porque foi foda. Caralho. Puta que o pariu.

Sofia super elegante. Ela falou palavrão e parecia que ela recitou Vinicius de Moraes. David Lynch com os olhos arregalados. Twin Peaks.

Sofia: Artur, você pode guardar essa bucha na sua bolsa? Do jeito que eu estou, daqui a pouco eu perco essa porra.

Guardei. Parecia uma borracha pequena. Verde. Uma borracha verde enrolada num saco de sacolé.

Gregg pilou, acendeu, fumou, tragou, soltou. Fumou, tragou, soltou. Fumou, tragou, soltou. Passou a bola.

Gregg: rola na de um.

Sofia fumou, tragou, soltou. Passou a bola.

Eu fumei, traguei, soltei. Passei a bola.

David fumou, tragou, soltou. Passou a bola.

Spike fumou, tragou, soltou. Passou a bola.

Gregg fumou, tragou, soltou. Passou a bola.

Descemos em direção oposta para sair do outro lado. Rua principal. Demos de cara com a polícia dando dura numa molecada. Todos encostados na parede. Todos de bermuda de surfista, camiseta e tênis de basquete. A maioria de boné. Quase todos negros. Policial com metralhadora apontando na cara dos meninos. Batendo neles. Terror. Tortura. Covardes. Vermes. Caralho! Puta que o pariu! Agora é a minha vez de falar palavrão. Puta que o pariu. Estou carregando o flagrante. Um flagrante responsa. Cinco passos para direita havia um bar. Pensei rápido. Fiz a coisa certa.

Cinco, seis, sete, oito. Eu dentro do bar: me dá duas Itaipavas e cinco copos.

Mesa. Enchi os copos. Carro da polícia vazou. Fui salvo pelo alcoolismo. Faltava uma pessoa.

Cadê o Spike?

Sofia: ele voltou. Ele subiu de volta.

(…)

Sofia foi ao banheiro. Quando voltou, estava estranha. Um sorriso de quem viu algo muito bom, porém pecaminoso.

Sentou-se. As bichas esperando a notícia.

Sofia: Gregg, sabe aquele papel que a gente comprou mais cedo? Estava na minha calcinha malocado. Estava com duas e meia na minha buceta.

Gregg: você é suja, Sofia. Você é uma mulher suja, sua puta. Bate aí para as irmãs.

Fomos numa esquina. Oito tiros.

Sofia: é melhor bater tudo de uma vez para não ter que andar com flagrante. O bagulho hoje está frenético.

(…)

Bar. Todos travados. Gente viciada. Levantei-me peguei cerveja. Ninguém falando nada. Levantei e voltei com conhaque.

Blá, blá, blá, blá, blá.

(…)

Mágico de Oz: Cada um tem pedido.

Gregg: quero cheirar.

Sofia: quero cheirar.

David: quero um cigarro.

Doro… ops! Eu: estou com saudades de casa. Quero ir para casa. Não há lugar como nosso lar.

Totó: quero uma buceta. Quero me transformar numa mulher.

Caminhei para casa. Fui voando como um sonho. Passa um carro. Música alta. “I dont know why”. Essa música está me perseguindo. Olho para frente. Spike Lee com um cigarro apagado. Nossos olhares se cruzaram. Um de frente para o outro.

Spike: você tem isqueiro?

Tenho. Abri a carteira. Tateei tentando encontrar. Camisinhas, camisinhas.

Espera, vou achar.

Camisinhas, camisinhas, camisinhas. Ops! O que é essa borracha na minha… Achei o isqueiro.

Acendi o cigarro dele. Ele me deu um. Acendi. Tragamos.

Spike: você estava indo para casa?

Camisinhas, camisinhas, camisinhas. Um monte de camisinhas na minha carteira de mão.

Estava. Estou bêbado, travado. As bichas queriam cheirar, eu já estava esgotado. Passei a semana inteira dando aulas para o David. Não dormi nada. Acho que vou dormir.

Spike: você quer dormir?

Camisinhas, camisinhas, camisinhas. Um monte de camisinhas na minha carteira de mão.

Quero. Quero a minha cama de casal. Saudades dela.

Spike: eu estou sem sono. Não tenho nada para fazer.

Camisinhas, camisinhas, camisinhas. Um monte de camisinhas na minha carteira de mão. Abri a carteira. Camisinhas, camisinhas, camisinhas. Um monte de camisinhas na minha carteira de mão. Procurei. Camisinhas, camisinhas, camisinhas. Um monte de camisinhas na minha carteira de mão. Achei. Achei aquela borracha verde.

Eu tenho um fino aqui, mas eu não sei apertar. Tenho isqueiro, seda…

Spike: vamos fumar. Eu aperto.

Sorriso final. Olhares de amantes. Olhares diamantes.Olhares de hoje vai ser precioso. A câmera se afasta. Ouve-se uma música. A música é “Here to stay” versão do New Order com The Chemical Brothres remixada pelo Felix da Housecat.Caminhamos na direção oposta a da câmera. Sobem os créditos. A luz se apaga. A vida começa.

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