A História do gozo

bailey_jagger 

Pedro Henrique era veado. Ele não sabia. Com 16 anos, o que você sabe sobre sexualidade? O que você sabe sobre sexo? O que você sabe sobre o amor? Pedro Henrique tinha depressão. Ouvia música triste, só ouvia música triste. Andava de preto para baixo e para cima. Tentava se matar pelo menos uma vez por mês. Pedro Henrique tomava os remédios que o psiquiatra receitava. Só tentava se matar tomando prozac. Uma vez, ele tentou se cortar, mas foi covarde demais. Quer dizer, covardia de bicha encubada.

Pedro Henrique era bonitinho. Magro, muito magro. Branquinho. Muito branco. Parecia uma menina. Andrógeno. Cabelo curto. Olhos escuros. Unhas pintadas de preto. All Star preto. Calça preta. Camiseta preta. Pedro Henrique adorava preto. Tudo o que era preto atraia Pedro Henrique. Tudo. Ele dizia “preto é a cor da morte”. Mentira. Pedro Henrique era uma bicha pintosa, mas ele não sabia. Ele tinha depressão, né menina? Aquele papo chato: “ai, ninguém me entende. Eu sou sensível”. Quer dizer, ele era veadíssimo.

Pedro Henrique tinha uma amiga. Ana. Aninha nada. Anão. Gigante. Politizada, feminista, queria ser revolucionária. Ia prestar vestibular para história. Brigou com a família durante um jantar. “Medicina é o caralho! Quero ser antropóloga. Quero fazer história”. Pediu licença em francês e saiu. Saiu para chorar. Nos braços do Pedro Henrique. Pedro Henrique chorou também. Ai, gente rica me mata de rir.

Pedro Henrique era uma bicha rica. Conhecia a França, fez intercâmbio na Austrália. Ia para os estados Unidos todo ano com a família para visitar o irmão. E ainda assim ele gostava de ser triste. De ser a vitima. Ele gostava. Russos só ficam felizes quando estão tristes. Pedro Henrique também. Ele era feliz, mas não sabia.

Ana disse: “quero sair”.

“Sair para onde?”

“Sei lá. Quero sair”.

Ana colocou 200 contos no bolso. E saíram. Foram até uma padaria. Compraram bebidas e cigarro. Sentaram numa pracinha.

Ana falou: “nossa vida é ruim”.

Pedro Henrique olhou para amiga, pensou um pouquinho: “Não é não”.

Ana sorriu. Pegou na perna do amigo: “quer saber? Vamos para o samba?”.

Pegaram um táxi. Escolha da garota negra nota dez diziam os cartazes.

Quinze reais as duas entradas. Ela pagou. Eles entraram. A primeira música que o casal ouviu foi Beth Carvalho. Pedro Henrique não sabia, mas a partir daquele dia, véspera do feriado de 20 de novembro, ele ia adorar os sambas de Beth Carvalho. E os de cartola, Arlindo Cruz, Almir Guineto, Noel Rosa. E de todos os outros. Pedro Henrique ia se apaixonar pelo carnaval.

Tomaram as primeiras cervejas. A venda de bebida alcoólica ou cigarro para menores é proibida, mas quem respeita as leis no Brasil? Ana fumou um Marlboro. Observaram o local. Riram, falaram bobagens. E assistiram ao desfile.

Ana: “é assim que as pessoas comemoram o dia da consciência negra? Com meninas de maiô e cabelo alisado?”.

O menino respondeu: “você não perde uma, sua louca”.

No intervalo do desfile, entrou a bateria. Aquele barulho todo. Aquele barulho bom de bateria de escola de samba. Todas as pessoas na quadra se sacudiram. Sambaram. A alegria contagiou o salão. Pedro Henrique permaneceu parado. Surgiu um homem gordo de sapato bicolor e paletó com as cores da escola. Sem saudar a platéia, disparou: “a sorrir eu pretendo levar a vida”. Pedro Henrique conhecia aquela música.

“Essa música é do Cazuza?” pensou. Pedro Henrique não sabia nada de samba. E começou a gostar. Ele começou a curtir.

E então como num passe de mágica, Pedro Henrique viu um dos instrumentistas. Um menino da idade dele. Calça skinny. Tênis Nike comprado suado em cinco prestações. Brinco de brilhantes na orelha e uma camiseta de algodão com a inscrição “Tico-Tico no fubá”.

Tico-tico no fubá, ele leu e abriu um sorriso. E viu o garoto. Ele tinha a pele mais negra que Pedro Henrique já viu.  Pedro Henrique foi tomado por um arrepio e uma sensação de bem estar. E de uma felicidade. De uma felicidade que poucos privilegiados sentirão durante a vida. O menino olhou de volta. O menino encarou nosso protagonista. E sorriu para ele.

Pedro Henrique era veado. Ele sabia a cor das folhas das árvores no outono europeu porque conheceu a França. Sabia a cor da areia das praias australianas. A cor da neve no inverno de Nova Iorque. Pedro Henrique sabia demais, aquela bicha apaixonada sabia muito.

Pedro Henrique era veado. Ele não sabia. Até aquele exato momento.

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