Não me limito no glitter

“Sou alérgico a heróis”

João Silvério Trevissan

 

 

Depois que eu trepei com o dunda baixinho, encontrei Zaira e Fabian no bar do Paulinho. Tomamos uma, duas, três. Paulinho: Artur, essa é a saideira. Hoje vendi toda a minha cerveja. Ok. Fomos ao apê do Fabian porque Zaira queria usar o toalete. Quer dar um tiro? Quero. Um, dois, três. Trailer do Wilson depois.

Blá, blá, blá. Falamos de cantoras brasileiras e do Ney. Zaira emprestou ao Fabian os Inclassificáveis. Vamos marcar de assisti-lo amanhã? Táxi, bye, bye.

Sábado, bebedeira. Domingo, também. Segunda nada. Liguei. Amanhã de manhã. Outro dia, meu telefone toca. Desce veado!

Confesso que não consegui dormir. Ansioso e com medo de não acordar. Adoro Ney Matogrosso. Liguei a TV. Televisão é ótima para pegar no sono. Aniversário de Roberto Cavalli no canal italiano. Perdi o sono. Alek Wek com um biquíni de zebra.

Amanheceu. Tomei um copão de caipirinha com o meu irmão. Fabian. Primeiro o DVD novo da Terça Insana. Quá, quá, quá, quá, quá. Ney vestindo Ocimar Versolato.

Ney me desafiando a repensar a moda masculina. O Fashion Special da FTV de semana passada sobre moda masculina. Já disse que não gostei nem um pouco. Falaram do vestuário masculino no cinema e se esqueceram dos filmes do Hitchcock. E o pior: não citaram Barry Lyndon nem Laranja Mecânica do Kubrick. Não falaram do Jimi Hendrix. Quando penso em moda, lembro do índice de suicídio e violência entre homens. Da relação de amor entre pai e filho que nunca se abraçam ou se beijam. É tapinha nas costas, nos braços. É o famoso vira homem, moleque. De o proibido chorar, do proibido amar. E de como nós somos frágeis. E usamos roupas largas dos anos 90 ou terno e gravata de sempre.

Falta leitura de moda. Falta revolução sexual. Falta veadagem também. Falta roupa de homem. Percebo que as mulheres se apoderaram de todo o guarda-roupa dos meninos. Alfaiataria, calças e sungas. E os homens na mesma. Aqui no sudeste os meninos vão aos bailes funk de casaco largo e bermuda de microfibra. Por que ainda não temos meia-calça masculina?

Moda masculina é formação de exército. Somos educados para que sejamos soldados. Que amemos a guerra. Nossos brinquedos são lutadores, super-heróis, soldados. Por isso os meninos andam todos uniformizados. Somos todos os soldadinhos dessa guerra. Quem se veste diferente, ou seja, se destaca é o chefe desse exército. Mas esse mesmo chefe não entra na guerra, ele dá ordens.

Como vivemos em guerra, precisamos que haja inimigos. Policia e ladrão; bem contra o mal; mocinhos e bandidos. Homossexuais no imaginário popular são pessoas que se vestem bem. Deveriam/devem ser chefes. Porém, vivemos num território (o planeta, nosso Brasil) que persegue homossexuais. Num lugar onde matam as bichas. Nesse caso, há também perseguição com meninos que se vestem diferente dos demais. Os nerds são bons exemplos. O garoto viciado em biblioteca, ciência e notas altas (o LOSER) é atacado por outros. Bullying. O medo do bullying (o medo de ser o inimigo) faz com os meninos procurem neutralidade. Alguns passam a copiar o modo que a maioria se veste. Quando somos adultos, usamos terno e gravata.

Votaram no Fernando Collor porque ele era bonito. Bonita camiseta Fernandinho. Tomamos no cu. Collor se vestia mal para caralho. Usava sungas horrorosas. Ele era ladrão.  97% dos assassinos em série são homens. O crime também é guerra. Criminosos não sabem se vestir. O estereótipo do criminoso é sempre alguém que mora no morro. Usa boné, bermudão de surfista (quase sempre é negro). O bandido nunca é o deputado dentro de um terno Ricardo Almeida. E sabemos que muitos políticos são corruptos. Mas o bandido é pobre e mora no morro. Não interessa se ele era estudante, trabalhador ou se ganhou um prêmio ensinando capoeira para crianças. Se a polícia matou era bandido. O deputado, não.

Moda é importante sim, senhor! Moda é embalagem. Leiam sobre o poder da coca-cola. Leiam Umberto Eco. O malvado é feio. O príncipe é encantado.

Sabe por que ninguém fala mal de um Mussum, ou de Angenor, de um Pixinguinha, ou de um Chico ou de um Vinicius ou Jobim? Porque eles são cartolas. Eles são chefes. E ninguém fala mal do chefe. Amamos nosso líder. Deus é bom. Deus é pai. O pai é o exemplo. Nosso primeiro líder.  E nessa guerra todo mundo que superar (matar) o pai, cavalheiro Shakespeare.  Porque o pai é o homem que a gente mais ama. Ama mais que o exército. Ama mais que o Playmobil.

O pai tem o pau maior que o seu (lembram de Family Guy?). O pai é super potente. Sociedade falocêntrica. Homem tem que ser viril. Por isso o carro vende tanto. Um bilhão de automóveis no mundo. O automóvel substituiu (leia-se evolução/mutação) o cavalo. Trepar feito um cavalo. Aquele garoto é um cavalo, aquele garoto tem um cavalo. Um corcel? Um Mustang? Um carro raça forte?

Vocês sabem, né? O escravo negro com pau grande era sinal de boa sorte. Os escravos eram considerados animais, menos inteligentes. O racismo sustenta justamente isso. Por exemplo, ser branco é melhor, mais bonito, mais humano que ser índio, negro ou asiático. Um negão deveria falar mais para outro negão: sua cor é legal, cara. Sua cor é bonita. O nazismo e a KKK falavam direto que ser branco é ser superior. SPFW 1128 modelos, 28 eram negros. Moda é política. Reflete a sociedade racista. Barack Obama virou fenômeno de moda. Houve coleções só com modelos negros na Europa. A Vogue Itália lançou sua primeira edição dedicada a modelos negras.

Moda é negócio. Steve Jobs é cool. Nós amamos a Apple. Bill Gates gastará uma fortuna para melhorar a imagem da Microsoft. Leiam o Príncipe do Maquiavel. Leiam mais sobre Luis XIV para saber por que usamos terno e gravata. Por que os sapatos masculinos são tão caros.

Os escravos não tinham sapatos. Os escravos, os robôs.  O atleta olímpico que corre mais rápido tem as melhores roupas. Tem o melhor investimento. O escravo ainda não tem sapato. Um salário mínimo (salário escravo) não compra um tênis Nike.  O chefe, os vencedores usam roupas caras. E os vencedores são amados por todos.

Os homens que malham (veja exemplos no africanmuscle.com) estão buscando amor, foda ou só querem ganhar prêmios? Ou estão se transformando em belas máquinas?  Humanos fodem. Os humanos dominam as máquinas. Máquinas obedecem. Máquinas são robôs. Robôs não amam. Os brutos também amam. Robôs são soldados. Soldados matam. Humanos criam, constroem, amam. Humanos transformam-se em heróis.

Somos heróis ou robôs de terno e gravata? Moda é para heróis. Assim como a arte, a ciência, os esportes. Entender moda, arte, ciência, esporte é para o chefe. O dono do poder. Moda é para Deus. Deuses. Moda é criação, ejaculação. Moda é foda.

 

Quando eu fui à casa de mamãe, minha irmã me presenteou com um livro. O Mulato, Aluísio Azevedo. Bom seria se os livros entrassem na moda. Masculina e feminina. Para entender o que é o figurino do Ney em Inclassificáveis. Sim, nenhuma das respostas anteriores. Nenhuma.

 

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Um comentário sobre “Não me limito no glitter”

  1. Mais uma vez percebo que você deve também derrubar obstáculos nesta guerra: outros ares, outras pistas e cidades. Saia daí, não se prepare demais pra vida. Aposte nela! Seu texto é muito bom, mas repetitivo. Se você formatá-lo, vira um editorial de uma revista de alta qualidade. Refina somente dados sobre a moda masculina e edite. Gosto de síntese com informação condensada pra não enjoar tanto ao leitor…você ainda está muito angustiado como eu…todos os dias, vejo dobrar o número de trabalhadores de São Paulo vestidos do mesmo jeito – calça social, camisa tricoline, gravata e sapatos engraxados…se não se veste assim, é mais um desempregado…os “administradores” leem compulsivamente livros de auto-ajuda no metrô…prefiro jornais, filosofia, comunicação, design… crio poesia pra respirar melhor…Maria Bethania e Caetano liam Pessoa na infância…nunca foram pessoas indecisas e frustradas…jamais imaginaria a Bethania lendo “Quem mexeu no meu queijo?” numa estação metropolitana. Ontem ouvi um elogio de uma cliente: “tudo bem, havia esquecido que você é um robô como os outros não sabe atender…” – respondi obrigado e caí no riso após a ligação, com o script na tela. A vida é maquinaria absurda!
    Fique bem e faça amizade com Walerio Araujo. Faça contatos!
    beijos com carinho

    p.s: Alex Sena, um amigo da turma do senac me contou que o hercovicth é uma bicha “fofa”. Alex já prestou serviços de bartender no clube Glória, no Bixiga e também em outros grandes clubes paulistanos.

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