Anti Bela Adormecida

 

Eu fui burra. Fiz burrice. E como todas as mulheres do mundo, eu acreditava em príncipe encantado. A gente espera por ele, sabe? Ainda mais uma criança triste. E pobre. Minha mãe era lavadeira, meu pai fazia bico. A gente era bem pobre mesmo. Eu sonhava que um dia eu ia sair daquela casa. E sonhava com alguém, com um marido, com um homem que ia me levar para um lugar melhor.

Não estudei muito. Larguei a escola na sexta série para poder ajudar a minha mãe com as tarefas de casa. Os meus irmãos não faziam nada. Família antiga, você está me entendendo? Para o meu pai, tarefa doméstica era coisa de mulher. Ele não lavava um prato. Eu tinha nojo dele. Eu me sentia uma escrava. Eu nunca vi ele beijando a minha mãe, entende? Ele não era carinhoso. Ele não era nada. Deus me perdoe, sabe?

Ele batia muito na minha mãe, ele batia muito na gente. Eu ficava revoltada. Eu queria entender. Eu… Sabe menina? Se tem uma coisa que eu me arrependendo é de não ter estudo. Acho tão bonito se formar. O que você é? Eu sou doutora. Eu curo os doentes. Trabalho em hospital, mas não é fazendo faxina. Sou cardiologista. Homem que bate em mulher era uma coisa que eu não aceitava. Minha mãe trabalhava igual uma cachorra. Lavava calcinha, lavava cueca dos outros, meu pai chegava bêbado e batia nela? Ah, vai se fuder! Levantava e batia nele também. Metia a porrada! Eu era pequena. Está vendo essa marca aqui?  É de tanto voar na parede. Porque eu apanhava muito. E era muito magrinha, enfrentava meu pai e voava… Xingava ele de tudo. Filho da puta! Quando ele morreu, eu fiquei feliz. Deus me perdoe.

Por que ele não conversava com a gente? A violência não é uma forma de dizer o que se quer? Ou meu pai batia na gente por covardia? Eu não posso!Toma orrada! Quando você fala mais alto, o que você quer afinal? Meu pai gritava muito. Ele queria impor que era macho? Ele queria ser o homem da casa? É realmente necessário gritar para se conseguir alguma coisa? E onde fica o bom dia, por favor, me dá licença, muito obrigada? Eu devo negar a minha educação, esquecer meus bons modos? E para que? Eu não sei explicar direito porque eu não tenho muito estudo, sabe? Mas para que você mata outra pessoa, então? Não é para dizer quem está viva sou eu, eu vivo! Eu ainda estou viva!

Quando eu fiz dezesseis anos, eu conheci meu marido. Era esquecer ou agarrar com todas as unhas, sabe? Eu não gostava dele, não. Mas minha mãe falou que com o tempo… Ele era velho, caminhoneiro. E eu tinha dezesseis. Sempre sonhei que seria diferente. A primeira vez. Nas novelas tudo é bonito. Todo mundo tem olho azul. Eu achei que ele ia me beijar. Que ele ia ser carinhoso. Tive três filhos com ele. Ele não era um marido ruim, não deixava faltar nada. Ele dava tudo para os meus filhos. Mas, ele não me fazia feliz. Ele não conversava. Não me batia… Ah! Porque se ele levantasse a mão para mim ou para um dos meus filhos… Eu viro bicho, menina. Eu viro o capeta. Deus que me perdoe.

Ele viajava muito. E tinha outras mulheres. Outros caras também. Acho que ele era bissexual. Sei lá… A gente fica pensando em tudo, né? Todo mundo que ligava para ele, eu pensava que era um amante. A solidão enlouquece qualquer uma. Ele também devia ser muito solitário.

, teve aquele dia que ele bateu na minha porta. O pastor. Eu estou falando do pastor. E o meu coração disparou de uma maneira incrível. Como eu sempre achei que ia ser. Como eu imaginava que ia ser salva. Ele me pediu água. A igreja dele estava em obra. Ficava em frente a minha casa. Eu nunca tinha reparado nele. Nem na igreja. Achava evangélico falso. Quando ele me pediu água e bebeu e disse Deus te abençoe, eu quis ser evangélica.

Nunca fui elogiada. Nunca fui nada. Sofri muito. Eu acordei no dia seguinte e fiquei varrendo a varanda, fiquei limpando o quintal só para ver ele chegando. Ele chegou de bicicleta e me olhou. Aí, disse um bom dia. Aí, eu chorei.

No dia seguinte, tomei coragem e levei um bolo de fubá com café Toko para ele. Eu estava fazendo isso todo o dia. E esperava alguma reação de homem dele. Sabe? Me convidar para sair, me elogiar como uma mulher. Eu queria ser amada por ele. Eu sempre quis que alguém me amasse.

Eu queria muito uma Barbie de presente de natal, mas lá em casa a gente nunca teve dinheiro para nada. Então eu fazia as minhas próprias bonecas quando eu era criança. E sempre tinha isso em mim. Que um dia eu ia ter tudo que eu sonhava. Porque eu lutava e acreditava que um dia ia acontecer.

Então, numa sexta-feira, ele apareceu. Bateu na porta para devolver a garrafa de café. Eu estava fazendo o almoço. Bile à milanesa. Meu marido adorava. Meu marido não comia sem carne. Carne vermelha. Ele falou que o cheiro estava ótimo. E foi entrando. Meu coração acelerado. Enrolou, enrolou. Me convidou para sair depois do culto.

Ele marcou para me encontrar num lugar discreto. Cheguei até mais cedo que o combinado. Demos uma volta. Fomos até uma fazenda. Ele parou o carro. Me pediu para descer e me socou na cara. Pegou o martelo no banco de trás e me deu uma martelada. Eu cai, ele foi arrancando a minha roupa, colocando a mão na minha vagina. E depois me penetrou. Doía muito. Eu estava muito assustada. Ele com as mãos no meu pescoço me enforcando. Dizia coisas ruins. Falava que eu estava possuída e que era a minha culpa o que ele estava fazendo. Ele gozou em mim. Colocou a roupa. E disse que era para eu nunca mais tocar naquele assunto. Que era para esquecer dele. Que eu nunca mais falasse com ele. Eu fiquei com tanta raiva… Lembrei do meu pai. Do modo que ele me estuprava. De como era ruim aquele velho pinguço me procurando de madrugada. Lembrei do veneno que eu coloquei no copo de bebida dele. Daquele desgraçado morrendo na minha frente. Lembrei de como ele tratava a minha mãe. E da promessa que eu fiz de que nunca mais ia passar por aquilo. Eu estava nervosa. Eu estava com raiva. Peguei o martelo e fui batendo nele. Só golpe na cabeça. Tum, tum, tum, tum. Foi meu jeito de fazer justiça. Nunca mais. Nunca mais, miserável.


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