Rico ri à toa

 

 

Estava por conta do caralho. Refrescava-me na piscina de plástico da casa da Regina, uma mulher que eu ficava sempre que ela se sentia sozinha. Bebia cerveja e algumas caipirinhas depois de me entupir de conhaque na última reunião antes da inauguração da nova academia da minha mãe. Conversa vai, conversa vem, Regina queria algo a mais para aquele final de tarde agradável. Me deu vinte reais para abrirmos a noite. Fui buscar na casa do traficante. Blá, blá, blá. Cheiramos. Pó ruim. Bebemos mais, cheiramos mais, busquei mais. Ela pagando, sim eu queria mais pó. Ouvimos músicas antigas. Não comemos nada, claro. Tomei um banho de chuveiro e coloquei uma camiseta com estampa do David Bowie surrada, calça preta e sapato preto.

Descemos para a inauguração. No meio do caminho, o marido oficial dela aparece. Como eu era o amante secreto, fui simpático com ele.

Na porta da academia encontro com o meu pai mal vestido, sozinho e fudido. Pago uma cerveja para ele no bar ao lado e resolvo dar uma volta antes de entrar naquela porcaria. Regina, meu pai e o marido dela entram. Na praça São Sebastião encontro um amigo de escola, Tiago Maia. Ele jamais soube que eu estava feliz porque algumas drogas favoreceram. A gente se conheceu em Nova Iorque apesar de morarmos no mesmo prédio. Estudava teatro por lá em 2001 e fui comer alguma coisa no Yaffa Café, na St. Mark’s Place, East Village. Quando ele entrou, deu de cara comigo e em segundos estávamos falando de moda, arte e pirocas pretas brasileiras.

Tiago e eu matamos a saudade com uma longa conversa para colocar o papo em dia. Falamos sobre a possibilidade de termos sexo naquele dia, da sua ida a Austrália no último reveillon, da inauguração da academia da minha mãe, da vontade nossa de desaparecer daquele lugar.

Voltei para a inauguração. No começo dos anos 90, minha mãe teve um acidente que comprometeu suas articulações. Ou ela assumia uma vida mais ativa ou corria o risco de não mais andar. Começou fazendo hidromassagem, se entusiasmou e comprou uns aparelhos de ginástica e na primavera daquele ano abriu sua primeira academia. Hoje inaugurava mais uma, porém essa tinha três andares.

Teve fogos de artifícios e o caralho. Achei cafona e pensei em Nova Iorque. Regina apareceu tomando prosseco. Me deu uma taça. A banda estava tocando umas músicas sem graça aí eu fui para um bar que tocava samba. Entrei no bar e fui surpreendido com o delicioso samba “Eu vou tomar um porre de felicidade”. Sambei para caralho, bebi cachaça para caralho, fumei uns cigarros com as bichas. Achei o Tiago Maia e ele falou que tinha black. Enjoei do bar.

Fui com ele dar umas bolas. Fumamos um bagulhão na linha do trem. Me senti maravilhoso e queria dançar vulgaridades. Comprei um ingresso e entrei num baile funk. Espera aí mermão. No caminho encontrei com uma prima e entramos juntos na festa. Ela ficou quinze minutos e saiu. Conheci dois meninos de Paraíba do Sul. Tomei uns copos de vinho barato, cerveja e fumei mais cigarros. Fiquei com os dois. Natália Borges me chamou para beber. E depois fomos embora daquele lugar. Me despedi dos caras com uns beijos no banheiro. Tomamos as saideiras na lanchonete do Chinês. Paguei um táxi para ela ir para casa e fui pegar o final da festa da academia da minha mãe. Nenhum dos funcionários dela era negro. Todos brancos e sem graça. Nem o Dj, nem o professor de dança, nem os caras da faxina. Peguei uma garrafa de prosseco e vazei.

Chegando em casa encontro minhas vizinhas completamente bêbadas, satisfeitas com a noite de sexta-feira. Estavam em uma puta festa de arromba promovida por alguns jovens traficantes da rua ao lado. Nova Iorque, Nova Iorque.

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Um comentário sobre “Rico ri à toa”

  1. Adorei sua nova foto , ficou assim… Arthur, Olha! vamos bombar na festa de pokemon hoje, “O bom senso nos diz que as coisas da terra não existem inteiramente e que a verdadeira realidade só é encontrada nos sonhos. Para digerir a felicidade natural, como a artificial, é preciso, antes de tudo, coragem para engoli-la. Charles Baudelaire, em Paraíso Artificiais.

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