Amores Honestos ou Amores Expressos?

 

 

ABERTURAChamada de um programa de entrevistas

CENA UM: O personagem está inquieto na mesa da cozinha (percebe-se uma mesa bagunçada com papéis e livros espalhados)

Escritor – Eu não consigo escrever. Tenho a idéia em mente, porém não consigo, ou talvez não possa passá-la para o papel. Estranho, não? Vou fumar um cigarro. Talvez ajude. (O cigarro é Ritz) Minha irmã cismou que uma mulher fina tem que fumar cigarro de filtro longo. Eu gosto é do Marlboro. Para mim, peraí, deixa eu fumar. Hum… Fumar é bom. Dá câncer, mas é bom. Vou fazer café. Quem sabe ajuda. Tomo ou não tomo? Que preguiça! Tenho que reler Roberto da Matta.

VINHETA: POR QUE VOCÊ DECIDIU SER ESCRITOR?

Mesmo lugar. No fundo vê-se o bule no fogo.

Escritor – Não sei. Muita fome. Desejava comprar comida. Nas minhas fases secas, eu sentia tanta fome que queria comer uma baleia.

VINHETA: SEUS CONTOS FALAM DE SEXUALIDADE E VIOLÊNCIA. VOCÊ ACREDITA QUE SEXO E VIOLÊNCIA SE COMPLETAM?

No fundo ouve-se da música “Toda forma de amor” do Lulu Santos o trecho “a gente vai a luta e conhece a dor/ consideramos justa toda forma de amor”.

Escritor – Não acho que sexo seja violento. Sexo é antiviolento. Sexo eleva o humor, legalmente loiras. Eu não conheço uma prostituta mal-humorada, por exemplo. Acho que foder é o melhor calmante, melhor que Prozac. Trepar é o melhor remédio. Violência para mim é sentir fome.

VINHETA: VOCÊ ESCREVE PARA QUEM?

Personagem está coando o café. (As cenas da entrevista são fragmentadas. Idéia de edição das cenas como o programa Recorte Cultural da TV Brasil).

Depois de uma pausa, adoça o café, cheira e toma uma xícara.

Escritor – Meu público-alvo é o amor.

Corte. Imagem dos lutadores Evander Holyfield, Kofi Kingston e Mark Weir. Música de fundo “Belivie” The Chemical Brothers.

CENA DOIS: biblioteca da casa

Personagem está ao lado de um amigo de longa data ou um amante antigo (ele precisa ser negro). Observam/ analisam fotos em preto e branco.

Amigo e/ou amante(fala como se já conversassem há bastante tempo) Poderia a imagem salvar nos da miséria?

Escritor – Conhece Cássio Vasconcelos? Ele fotografa pessoas de olhos fechados. Sabe, é o resgate das forças das imagens contemporâneas. Porque a gente vive uma inflação de imagens. Imagens que se proliferam como se fosse um câncer. Eu penso em imagens quando estou escrevendo. Muitas imagens. Muitas. Eu penso em videoclipe. No tudo ao mesmo tempo agora. É por isso que corto as frases o tempo todo. Verbo, ponto (fala batendo na palma da mão como se cortasse). Adjetivo, ponto. Uma frase, um palavrão, ponto. Os nossos dias são rápidos demais e se você não for veloz, eles te consomem.

O amigo ou amante (ou os dois) está fumando.

Amigo e/ou amante – Por isso você escreve tanto sobre fome?

Escritor – Você sabe a origem do cigarro Marlboro? O design foi criado para gays brancos que fantasiavam trepar com negões. As letras “l” e “b” são a piroca preta entrando no cu das bichas.

O amigo/amante abre um sorriso e traga o cigarro. Oferece um ao personagem escritor.

CENA TRÊS: Poltrona da sala. A personagem está tomando um licor de abacaxi com gelo. Mesma casa. Num quadro do lado esquerdo lê-se “O belo é falar o que se acredita”.

Pergunta em Off: – Se você não fosse escritor?

Escritor – Queria ser burro e rico. Se eu fosse burro e rico já teria feito mestrado.

Som de gargalhadas típicas de programas humorísticos.

Escritor – Nutricionista. Adoro ciência gastronômica.

Imagem de alguém levando uma torta na cara.

CENA DOIS: Biblioteca da casa. Personagem e amigo/amante entretido com alguns esboços.

Escritor – O jeito é fazer bonequinhos dos personagens para que nós possamos enxergar as cenas e escrever os diálogos.

Amigo e/ou amante – Também pensar nas roupas, personalidades.

CENA QUATRO: Estúdio fotográfico. Vários modelos negros usando apenas colares e pulseiras (provavelmente H. Stern). O personagem escritor está conversando com os modelos.

Escritor – Não ignorem a câmera. Eu detesto esses retratos contemporâneos porque eles não nos olham mais. Olhem para as pessoas. Amem as pessoas. Queiram que elas desejem fazer parte dessa cena. Enlouqueçam as pessoas. O mundo precisa de mais loucos. (personagem pensa alto) É mesmo, a imagem pode nos salvar da miséria? (fala para os modelos) Luxo. Eu quero ver riqueza no olhar de vocês.

CENA DOIS: Biblioteca. Personagem com o amigo/amante.

Personagem lê em voz alta uma lista.

Escritor – Construção dos personagens, apresentar dificuldades, deixar o espectador inquieto, coerência na trajetória. (personagem interrompe a leitura e se pergunta) Coerência?

Amigo e/ou amante (surpreso) Oi?

Escritor – Nada de coerência. Esse roteiro não pode ter sentido. A vida não tem sentido.

VINHETA: COMO É O SEU PROCESSO DE CRIAÇÃO?

CENA UM: Cozinha. Personagem está na pia tomando café.

Escritor – Eu não obedeço nada. Posso estar lendo um jornal… Posso estar lendo? Que horror! Às vezes tomando banho eu tenho uma idéia. Tem dia que eu acordo com o final de um texto e depois eu colo. Escrevo como quem faz colagens. (diz rindo irônico) Ok, meu processo criativo é uma ilha de edição.

VINHETA: OVERDOSE DE REFERÊNCIAS

Música de fundo “Ray Of Light” da Madonna. Videoclipe com fotos de escritores mortos, cenas de filmes de Billy Wilder, Capra e David Lynch; trechos dos videoclipes “Bizarre Love Triangle” do New Order, Daft Punk com “Around The World” e show ao vivo da Björk. Cena de dança, chamada de programa de culinária. Alfred Hitchcock falando “No cinema, é preciso encontrar formas visuais de narrar uma história”. Trecho da segunda cena de Black Brazilian Boys do ator pornô Todinho recebendo um boquete. Propaganda de chocolate e final de “Nightless Night” (tudo isso deve ocorrer em menos de um minuto).

CENA UM: Cozinha. Personagem na pia coando o café.

Escritor – Não sei se adoço o café ou se escrevo um roteiro de cinema.

CENA CINCO: Quarto. Personagem está deitado na cama e acorda.

Escritor – Que loucura! Puta merda!

CENA DOIS: Biblioteca. Personagem escritor e amigo/ amante.

Escritor – Então ele acorda e diz: Que loucura! Puta merda!

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2 comentários sobre “Amores Honestos ou Amores Expressos?”

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