O que faz um escritor

 

 

 

Ganhei um presente original da editora que publicava meus livros: um dia num Spa para nudistas. Adoro nudez. Era um daqueles sábados horrorosos para se ficar em São Paulo. Peguei meu carro e sai já completamente pelado. Na recepção uma simpática mulher me recebeu com um gostoso bem-vindo e um copo de suco de melão, pitanga e beterraba. “Está faltando vodka”, eu disse. Ela sorriu.

“Trouxe bagagens, senhor?”.

“Trouxe um chapéu, um par de óculos e um cachecol para o caso de fazer frio por aqui”

Ela deu outro sorriso.

“Li todos os seus livros. ‘Consolo de cu é rola’ mudou a minha vida”.

“Para pior?”.

“Não. Não!” Ela deu uma gargalhada. “Mudou para melhor. Hoje eu vivo mais leve. Hoje em dia eu sorrio muito mais”.

“Eu sou uma piada mesmo”.

“Vou buscar sua vodka, senhor”.

Deitei perto da piscina e bebi o dia inteiro. Usava umas pulseiras de pérolas falsas. Percebi que um garoto lindo e negro me observava. Levantei meu copo e fiz um sinal para ele. Ele sentou ao meu lado. Pau enorme. Corpo fabuloso de atleta olímpico.

“Você tem idade para beber, menino?”.

“Tenho. Tenho sim. Mas não bebo nada, não”.

“Não bebe por quê?”.

“Não gosto de bebida alcoólica”.

“E de baseado?”.

“Não bebo, não fumo e não cheiro”.

“E o que você faz para deixar a sua vida mais leve? Você é viciado em Spa?”.

“Não. Eu trepo. Não bebo, não fumo, não cheiro. Gosto de fuder”.

“Ah! Mas isso é chato”.

“Você não é o cara que escreveu ‘Manual das bichas bravas’?”.

“Isso. Sou eu sim”.

“Você escreve muita sacanagem”.

“Sacanagem para mim é sentir fome”.

“Por que você decidiu escrever aquele livro?”.

“Sei lá. Tédio”.

“Posso fazer uma pergunta boba?”.

“Adoro perguntas bobas”.

“O que faz um escritor?”.

“Como assim?”.

“Como assim, o quê?”.

“Como assim o que faz um escritor?”.

“Eu quero saber das coisas que te faz escritor”.

“Você quer saber das características intrínsecas…”.

“In… o quê?” Ele me interrompeu.

Se ele tivesse outra cor de pele, eu mandava ele ir embora naquela hora. Se ele não fosse afro-brasileiro, eu também não teria a menor paciência para conversar com ele. Refiz a pergunta usando um vocabulário mais acessível.

 “Você quer saber quais são as qualidades necessárias para se escrever, certo?”.

“Isso. Quais são as qualidades de um escritor?”.

“Não sei. Quais são?”.

“Ora, você é quem devia falar. Afinal de contas você é o escritor”.

“Eu sou um escritor?”.

“Você é. Você lançou um monte de livros”.

“Isso faz de mim um escritor?”.

“Acho que faz”.

“Bruna Surfistinha escreveu um livro. Ela é escritora?”.

 

Fernando Sabino na crônica de mesmo nome acredita que o escritor é aquele que faz as perguntas. Então, aqueles que idealizam os exames vestibulares são escritores? Prova de vestibular é literatura? O que afinal é literatura? E, sim, o que é preciso fazer para ser um escritor? Quer dizer, o que faz um escritor? O escritor é aquele que escreve? Pergunta boba, você não acha? Porque se eu escrever “Lázaro Ramos, fui naquela delicatessen buscar o tal queijo que você vive insistindo que melhora a nossa ejaculação. Se eu demorar, estarei vendo o ensaio dos bailarinos moçambicanos do Fundão. Você sabe que eu sou apaixonado por dança. Não precisa tomar banho. Quero lamber seu suor. Seu suor é melhor que qualquer queijo. Eu te amo, Artur”, esse bilhete será literatura? Escrever um bilhete tolo me fará um escritor?

 

Se escrever é a arte do escritor, qualquer idiota pode ser escritor. Luciano Huck escreveu um livro. O escritor é aquele que escreve bem, então? Drauzio Varella escreve muito bem. Mas qual a diferença de um Caio Fernando Abreu e um Drauzio Varella? O escritor é um médico ou é um louco? O que é um escritor?

 

“O que é um escritor?” Perguntei em voz alta.

Ele me olhou como se não tivesse a resposta.

“Você é quem deveria saber”. Ele disse de uma forma doce.

Enchi meu copo com mais vodka.

“Eu não sou o dono das respostas. Talvez, por isso eu escreva. São muitas perguntas. E alguém precisa me responder pelo menos uma delas. Talvez por isso há tanto suicídio e alcoolismo na profissão. Há muito desencanto também. Florbela Espanca se matou com 36 anos e Mario de Sá-Carneiro com 26. Hemingway era alcoólatra. Adivinha como ele morreu? Será esse o meu destino? Eu realmente quero ser escritor?”.

Ele franziu a testa, pegou no pau e massageou por uns segundos. Adoraria chupar aquele pinto. Peguei minha vodka e tomei num gole só. Não sou de beber rápido, foi um gesto simbólico. Enchi mais uma vez o copo. Garrafa pela metade.

“Por quê as pessoas escrevem? Por quê? O escritor é aquele que insisti em escrever? Então como responder aos suicídios? Virginia Woolf se matou por quê? Que pergunta não foi respondida?”.

 

Depois de um silêncio assustador voltamos com as perguntas.

“Precisa gostar para escrever?”, perguntou meu crime e castigo.

 

Gosto de música, bibliotecas, pornografia, bebida alcoólica, gastronomia, beirada de rio, cinema, televisão por assinatura, internet, tecnologia, strip-tease, caixas eletrônicos, jogos de tabuleiro, editorial de moda, underwear, pesquisa de mercado, jornais e revistas, filipetas de eventos, festas temáticas, ioga. Gosto de acordar cedo e dormir tarde, de meditar, dançar, de beber chá, de limpar a cozinha, ler horóscopo de O Globo, de falar sozinho, gosto de ver a lua nascer, cheirar livros novos, tocar punheta, gosto de lamber cu e chupar pau. E gosto de homens negros. Aliás, adoro! Basta um desses exemplares de ébano na minha frente para eu esquecer que sei até ler e escrever. E eu adoro ler e escrever. E estava ao lado de um garoto que em instantes poderia fazer com que eu repensasse as minhas prioridades.

Respondi com outra pergunta: “gostar de quê?”.

“De escrever”.

“De escrever o quê?”.

“Precisa gostar de escrever qualquer coisa para se escrever?” Dessa vez ele tentou ser um pouco mais específico.

“Qualquer coisa o quê?”.

Ele já sem paciência: “você faz muitas perguntas”.

Coloquei minha mão na perna dele. Uma perna extremamente dura. Ele devia ser atleta ou coisa parecida.

“Não é isso que faz um escritor?”.

“O escritor é você. Você é quem deveria me responder”.

“Por quê?”.

“Porque sim. A literatura não responde as nossas dúvidas e angústias?”. Filosofou.

“Responde? Que livros você está lendo? Li a vida inteira e ainda estou abarrotado de questões”.

“Deve ser por isso que você faz tantas perguntas”.

“Você já leu Fernando Sabino?”.

“Não. Por quê?”.

“O final dele é diferente. Talvez porque eu seja o Sargentelli nessa história”. Disse aquilo já querendo mudar de assunto. Fui ficando com tesão por ele. Garoto chato, gostoso e pirocudo.

“Sargetelli?”.

“Você não conhece o Sargentelli?”.

“Não. Não conheço. Ele é escritor também?”.

“Digamos que ele gosta da mesma fruta que eu, porém ao contrário”.

“Não entendi”.

“Por que você acha que eu só escrevo sacanagem?”.

“Seus personagens falam muito palavrão. E sempre tem um negão que todo mundo quer foder com ele”.

“E você fica puto porque ninguém quer fuder contigo”.

“Não. Nada a ver. Nada a ver”.

“Quer dizer que você fode para caralho?”.

“Está vendo? Esse é seu problema. Você fala muita sacanagem”.

Ele disse aquilo e apalpou o pau de novo.

 

Uma vez os “artistas” de Três Rios se reuniram para trocar experiências num bar bacana. Convidaram-me. Montei um esquete bobinho vestido de palhaço. Eu falava das dificuldades que um artista brasileiro passa para viver de sua arte. Era uma comédia. Algumas pessoas ficaram chocadas. Algum tempo depois descobri uma das razões do espanto: eu falava “piru”. Mas o que espanta mais piru ou saber que muitos cinemas e teatros estão fechando e se transformando em igreja? Piru é mais chocante que um artista que não tem espaço para se expressar num país tão rico quanto o nosso? O que é sacanagem?

“Defina sacanagem”. Disse já sem paciência.

“Ah! Sei lá. Muita coisa”.

“Muita coisa o quê? A principal causa de morte entre os negros brasileiros é a violência. Que violência? O Brasil é extremamente racista. Eu conheço poucas pessoas que te achariam bonito, por exemplo. Isso para mim é sacanagem”.

“Mas eu não sou bonito”.

“Está vendo? Lavagem cerebral. Quase não se vê negros na televisão e na publicidade. Claro que você não vai se achar bonito. Eu acho você lindo. E com esse pirocão, você está me enlouquecendo”.

Ele riu. Passou a mão no pau de novo. Arrastou a cadeira para ficar mais perto de mim.

“Você continua de sacanagem comigo”.

“Pode ser. Não sou eu o escritor das sacanagens?”.

“O que te inspira para escrever?”.

Perguntou com a mão no pau. Dessa vez ele alisava a pica como se quisesse deixa-la dura.

“Sobre o quê?” Meu pau nessa hora já estava completamente duro. Cruzei as pernas.

“Os seus livros são autobiográficos?”.

“Não quero responder mais nada. Tudo é tão vazio. Muitos suicídios. Escrever é tão solitário”.

“Você se considera uma pessoa solitária?”.

“Ao seu lado não”.

Ele me beijou.

“quer trepar comigo?”.

“Onde?”.

“Aqui. Agora”.

“Uau! Ia ser ótimo! Com todo mundo olhando”. Eu disse puxando ele pelo pescoço.

“Você está de pau duro”.

“Puta que o pariu. Duro para caralho”. Eu falava e alisava a perna e a bunda dele.

“Levanta para eu ver”.

Fiquei de pé. Meu pau na altura da boca dele.

“Você está fudido. Sou um ator disfarçado”.

“Não pode ser”.

“Te fudi. Você acaba de participar do programa ‘Fudidos na TV’”.

“Merda. Odeio televisão. A televisão destruiu a nossa sexualidade”.

 

 

 

 

 

 

 

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2 comentários sobre “O que faz um escritor”

  1. televisão é horrivel, mesmo. quase naun vejo
    adoro o modo q vc escreve.eh taun divertido.

    escreve mais. me manda um mail
    Bjs
    arturzinho… vá ser escritor meninu

    da sua guria beatriz

  2. Ai cara gosto dos seus textos, tem futuro, mais qual é seu nome? Tá demorando pra escrever de novo,……escreve maiss menino

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