Amor, Esperta-me

Folheava o caderno de Marcela quando vi uma espécie de poesia. Apenas palavras começadas com “es” e “ex”. Jogos de palavras são deliciosas perdições. Sato disse que no Pará os amigos dele tiravam a estrutura de um palavrão e montavam outras palavras com as letras do alfabeto. Por exemplo, caralho: aralho, baralho, daralho, earalho, faralho. Na adolescência, todo mundo está louco para trepar, por isso recompõe os palavrões. Puberdade é foda! Foda, goda, hoda, ioda, joga, loda. Puberdade é moda.

Sábado, a estudante de letras Cléo combinou um piquenique na beirada do rio. Sexta, nós tomamos sangria e cachaça com suco e refrigerante de limão na porta do cemitério e depois na sepultura de um garoto que morrera muito jovem na década de 70. Suicidou-se? Trabalhei até o meio-dia e desci para encontrá-los. Eu, Cléo, Rique e Sato. Comprei uma vodka e suco de manga e pilhas para tirarmos fotos. Cléo trouxe Camões e Gegrório de Matos. Sato bombons de frutas tropicais e Rique um vinho mineiro. Tiramos quase 300 fotos. A maioria fotos-conceito. Li poesia e me senti burro. Uns meninos negros apareceram por lá e tomaram banho de cueca. Poesia para quê? A vida já é poesia.

Escuridão, extinção, excitar, estudante, estorvo, esporro, estojo, extermínio, esporte, estilo, estrutura, eximar, expirar. No domingo Sato e eu fomos fumar um na casa de Marcela e Luciano. Achei o caderno que continha algumas dúzias de palavras com “es” e “ex”. Completamos duas folhas citando novas palavras. Comemos bolinhos de chuva com café. Recitamos Fernando Pessoa. Final de semana especial.

Comentei que se aquela brincadeira virasse vício, daqui a 50 anos iríamos nos encontrar e um ia dizer para o outro: “espécie”, “espelho”, “estético”, “esquisito”…

 Segunda, Sato me ligou. Falou de poesia francesa e o significado da vida. Eu queria continuar com a brincadeira. Disse mais palavras: “escrever, extremo, escroto, esgoto…”.

Recomeçar, repensar, rever, remodelar, reanimar, recompor, responder.

 

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2 comentários sobre “Amor, Esperta-me”

  1. Desperta-me o quê? Eu levei minha alma pra passear!

    Hoje ouvi Nação Zumbi de manhã, álbum Fome de Tudo. “Eu levei minha alma pra passear…” diz o refrão da música Bossa Nostra. Nessa canção, o vermelho é a cor que incita a fome. A fome pode ser entendida como busca, luta! Gostei do bar no último domingo quando fui sozinho me divertir. Um bar todo em vermelho, frequentado por muitos negros residentes na esquecida Levy Gasparian onde moro há 2 anos. Jogo de palavras é bom mas pode ser rotineiro. Baseados, amigos, banho de rio, Gregório e natureza. Equação racional e acessível. Combinação perfeita, mas incompleta. Na hora em que Marcela foi cozinhar, mais parecia um domingo convencional das famílias que nada sonham, como há décadas e décadas. Ligaram a TV. Luciano foi ver programa do Faustão e deitou. Eu ouvi Super Tramp sozinho e ninguém curtiu nada. Que horror! Porque ele não comentou a edição de domingo do caderno “Folha Mais” que estava na minha sacola? Eu li vorazmente quando comprei. Quero mais! Gosto muito de explorar minha fonte de desejos sozinho.
    Gostei muito mais do meu final de domingo, dominó, doutorado, dorminhoco, domínio, donna karan, dobro, doce, dogville…
    Um bar vermelho perto de casa, muito samba e muitos negros. Um quadro perturbador e erótico. Brasileiros são erotizados e pornográficos, anti-éticos e hiper-consumidores. Mas arredios e hipócritas. Mesas entupidas de garrafas vazias de cerveja. A festa havia apenas começado. É a Má Educação que nos impõe como falsos vencedores. Não adianta tanto dinheiro se o amor não é gratuito. Recebi olhares do Aarão. Nome bíblico. Ele compra centenas de peças de roupa por ano. Ele tem um olhar lindo e faz penteados nos cabelos que fascinam. O hiper-consumo é desnecessário. Namora há muito tempo com uma conhecida de Levy, também negra como ele q. Bebi com dois casais. No fim da noite, um homem me seguiu com outros dois amigos gays com quem caminhava pela estrada. Surge uma dúvida: você não está com minha amiga Néia? Ele solta uma resposta negativa fugaz e ofegante. Não! Quero você. Nem pensei duas vezes. Voltei para a casa aliviado e incerto do quanto o vermelho despertaria a fome por sexo nas pessoas. Má educação repressora e cristã. De um lado, obedientes e acríticos. De outro, artistas loucos que pregam a política esquerdista e a liberdade. Hoje li sobre o movimento hippie que pregava o sexo livre, mas condenava os homossexuais, na década de 60. Outra dúvida e constatação: texto e discurso. Pessoas que dizem “eu te amo” se sentem livres o suficiente para o sexo? Ou melhor, o sexo liberta a todos? Ou repreende? A violência sexual não seria um definidor de toda a má educação? Que diria sobre pedofilia, desde que minha construção identitária como gay sempre fora combalida e injusta? Enfrenta-se uma grande sorte de preconceitos a vida inteira. Por vezes, paga-se com a inocência, em troca do desejo rubro e quente. Por isso, sou contra a encenação do desejo. Pra mim, é impossível fingir que se olha e não se toca. Não se pode tocar um objeto visto e contemplado, dizem os “social winners”. Claro! Sempre fui contra. Se compro um livro, tenho que tocar no papel, capa, ver fotos, caso haja. Mesmo que seja produto. E assim seja. Produto que desperta prazer. Portanto, desejo é vermelho e quente. A água quente abre os poros, dilata os pulmões e relaxa a respiração. E o sexo frio, olhares frios?… Desperta-me o quê? Aarão tem um olhar fixo, frio. Difícil perceber quanta fome o vermelho incita sobre sua libido! Difícil esperar por decisões. Somos orgânicos.

  2. Desperta-me o quê? Eu levei minha alma pra passear! (texto completo)
    Cleisson Sato – 16h/09.01.08

    Hoje ouvi Nação Zumbi de manhã, álbum Fome de Tudo. “Eu levei minha alma pra passear…” diz o refrão da música Bossa Nostra. Nessa canção, o vermelho é a cor que incita a fome. A fome pode ser entendida como busca, luta! Gostei do bar no último domingo quando fui sozinho me divertir. Um bar todo em vermelho, frequentado por muitos negros residentes na esquecida Levy Gasparian onde moro há 2 anos. Jogo de palavras é bom mas pode ser rotineiro. Baseados, amigos, banho de rio, Gregório e natureza. Equação racional e acessível. Combinação perfeita, mas incompleta. Na hora em que Marcela foi cozinhar, mais parecia um domingo convencional das famílias que nada sonham, como há décadas e décadas. Ligaram a TV. Luciano foi ver programa do Faustão e deitou. Eu ouvi Super Tramp sozinho e ninguém curtiu nada. Que horror! Porque ele não comentou a edição de domingo do caderno “Folha Mais” que estava na minha sacola? Eu li vorazmente quando comprei. Quero mais! Gosto muito de explorar minha fonte de desejos sozinho.
    Gostei muito mais do meu final de domingo, dominó, doutorado, dorminhoco, domínio, donna karan, dobro, doce, dogville…
    Um bar vermelho perto de casa, muito samba e muitos negros. Um quadro perturbador e erótico. Brasileiros são erotizados e pornográficos, anti-éticos e hiper-consumidores. Mas arredios e hipócritas. Mesas entupidas de garrafas vazias de cerveja. A festa havia apenas começado. É a Má Educação que nos impõe como falsos vencedores. Não adianta tanto dinheiro se o amor não é gratuito. Recebi olhares do Aarão. Nome bíblico. Ele compra centenas de peças de roupa por ano. Ele tem um olhar lindo e faz penteados nos cabelos que fascinam. Sorriso enigmático e másculo. O hiper-consumo é desnecessário. Namora há muito tempo com uma conhecida de Levy, também negra como ele que briga com quem paquerá-lo. Bebi cerveja com dois casais diferentes. No fim da noite, um homem me seguiu com outros dois amigos gays com quem caminhava pela estrada. Surge uma dúvida: você não está com minha amiga Néia? Ele solta uma resposta negativa fugaz e ofegante. Não! Quero você. Nem pensei duas vezes. Voltei para a casa aliviado e incerto do quanto o vermelho despertaria a fome por sexo nas pessoas. Má educação repressora e cristã. De um lado, obedientes e acríticos. De outro, artistas loucos que pregam a política esquerdista e a liberdade. Hoje li sobre o movimento hippie que pregava o sexo livre, mas condenava os homossexuais, na década de 60. Outra dúvida e constatação: texto e discurso. Pessoas que dizem “eu te amo” se sentem livres o suficiente para o sexo? Ou melhor, o sexo liberta a todos? Ou repreende? A violência sexual não seria um definidor de toda a má educação? Que diria sobre pedofilia, desde que minha construção identitária como gay sempre fora combalida e injusta? Enfrenta-se uma grande sorte de preconceitos a vida inteira. Por vezes, paga-se com a inocência, em troca do desejo rubro e quente. Por isso, sou contra a encenação do desejo. Pra mim, é impossível fingir que se olha e não se toca. Não se pode tocar um objeto visto e contemplado, dizem os “social winners”. Claro! Sempre fui contra. Se compro um livro, tenho que tocar no papel, capa, ver fotos, caso haja. Mesmo que seja produto. E assim seja. Produto que desperta prazer. Portanto, desejo é vermelho e quente. A água quente abre os poros, dilata os pulmões e relaxa a respiração. E o sexo frio, olhares frios?… Desperta-me o quê? Aarão tem um olhar fixo, frio. Difícil perceber quanta fome o vermelho incita sobre sua libido! Difícil esperar por decisões. Somos orgânicos.

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